Alguns católicos e o seu deus menor

Eu considero-me católico. Concordo com todos os dogmas da Igreja Católica com excepção de um: a ideia segundo a qual todas as almas são criadas de raiz aquando da concepção da vida humana. S. Paulo escreveu (cito de cor) que “há os espíritos da terra e os do céu” , enfatizando uma diferença entre dois tipos de espíritos. Portanto, eu acredito que há espíritos que já existiam, enquanto tal, antes de encarnarem num corpo através da concepção – o que não significa necessariamente que seja todos. Naturalmente que há católicos que me vão considerar um herege… e a S. Paulo também.

San Marco web 400.jpg

A Basílica de S. Marcos já tem um pára-raios

Em finais do século XIX, a torre da igreja de S. Marcos, em Veneza, Itália, foi atingida por um raio. O clero católico local mandou reconstruir o cimo da torre, mas recusou-se a colocar lá um pára-raios, alegadamente porque “o pára-raios era coisa da ciência”. Nos vinte anos seguintes, a torre de S. Marcos foi atingida mais três vezes por raios, destruindo-lhe por tantas vezes a cumeeira, antes que o clero local se decidisse, finalmente, a colocar lá um pára-raios, porque os prejuízos já se acumulavam de uma maneira insuportável. Isto para dizer que há católicos que pensam que a ciência se opõe à religião, e de tal forma assim pensam que recusam, ainda hoje, a simples ideia de um pára-raios.

Há católicos que pensam que a simples ideia de que possa existir vida no universo para além do planeta Terra, é uma heresia, um atentado ao catecismo da Igreja Católica. E outros pensam que os dinossauros existiram há 10 mil anos. Isso não é religião: é estupidez! É gente estúpida.

Outros pensam que Deus só poderia ter criado vida na Terra . Ou seja, esses católicos querem mandar em Deus, e dizer-Lhe aquilo que Ele deveria fazer ou ter feito. O Deus desses católicos é deus menor, submetido aos desejos deles. É um Deus que obedece às ordens deles, um Deus sem liberdade.

Alguns católicos não percebem que as leis da natureza, que a ciência estuda, são obras de Deus. E por isso, a ciência estuda as obras de Deus. E se a ciência estuda as obras de Deus, a ciência não pode ser intrinsecamente negativa. São os homens que fazem da ciência uma coisa má ou boa.

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6 respostas a Alguns católicos e o seu deus menor

  1. António Santos diz:

    “há os espíritos da terra e os do céu”
    Há os Anjos e as almas criadas por Deus no momento da concepção. Portanto a alma não “encarna” nem existe antes. Embora nós já estávamos no pensamento de Deus antes de Ele nos criar.

    • O. Braga diz:

      Eu sei. Na sua opinião S. Paulo era um herege, ou seja, você é que é um bom católico.

      Repare bem: não foi nesse sentido que S. Paulo proferiu essas palavras. Você tem que se situar na época em que S. Paulo viveu e no neoplatonismo que ele seguiu e que você não conhece.

      Por exemplo, o dogma da Trindade, da Igreja Católica, tem origem neoplatónica. E reencarnação também tem origem neoplatónica e era absolutamente aceite pelos primeiros cristãos e por toda a patrística, até ao concilio de Niceia no século IV d.C, presidido pessoalmente pelo imperador Constantino, que proibiu essa ideia. E por quê? Porque a mulher do imperador tinha sido uma prostituta antes de casar com ele, e porque a teoria da reencarnação defende a ideia segundo a qual um pecador vai pagar os seus pecados numa outra vida reencarnada.

      E que eu saiba, Jesus Cristo expulsou os espíritos demoníacos do corpo do homem possesso. Ou você vai dizer que Jesus Cristo também era um herege?!!

      O assunto é complicado e não vou adiantar-me mais aqui, em comentário.

      • António Santos diz:

        Ai que confusão… 🙂
        Eu achar que S. Paulo é herege?! Deus me livre! Bom católico… vou tentando ser… cair e levantar é a minha vida…
        Espíritos demoníacos, Anjos, que é que têm a ver com a alma do homem? São outros seres espirituais. A alma é criada e infundida por Deus no momento da concepção do homem.
        Os homens não nascem possessos de espíritos demoníacos. Com os exorcismos os demónios saiem mas o homem continua a viver e com alma.
        Ser católico é acreditar em Cristo, na Sua Igreja e sua doutrina, Magistério e Tradição atestada pelos Santos e Doutores da Igreja. Tudo o resto é soberba, opiniões próprias e alguma ignorância e acredito que, pelos bons artigos que aqui põe, não quer cair nesse erro nem vai cair. 🙂
        Abraço!

      • O. Braga diz:

        Parece-me que a confusão não é minha. Vamos ver. Voltemos à proposição:

        “há os espíritos que são da terra, e há os espíritos que são do céu.”

        1/ segundo a sua interpretação, os anjos não podem encarnar em um corpo humano. E se julgarmos verdadeira a sua interpretação, podemos acusá-lo de arianismo.

        2/ mas se, pelo contrário, os anjos podem encarnar num corpo humano, você tem que admitir a teoria da pré-existência da alma segundo Orígenes, porque, segundo ele e quase todos os pensadores da Igreja Católica, não é possível a um espírito encarnar num corpo sem possuir uma alma.

        3/ o dogma da negação da pré-existência da alma, para além de ser absurdo, já foi contrariado muitíssimas vezes pela experiência humana. A Igreja Católica não pode negar a experiência humana (no sentido colectivo e intersubjectivo), porque seria suicida: seria como negar a utilidade de um pára-raios.

        O Dr. Ian Pretyman Stevenson foi um médico psiquiatra de origem canadiana que acabou a sua vida profissional como professor na universidade da Virgínia, Estados Unidos. O prof. Stevenson dedicou grande parte da sua vida a investigar os relatos de “experiências de quase-morte” e de “reencarnação”; entre milhares de testemunhos, Stevenson foi estudando esses relatos com toda a dúvida metódica que caracteriza a ciência, arranjando uma explicação “científica” para a maioria dos casos relatados.

        Um dia destes, vamos ver a ciência a reconhecer indícios do fenómeno da reencarnação, e a Igreja Católica a continuar a negar a pré-existência da alma. É este o “fado” da Igreja Católica: ser sistematicamente descredibilizada pela ciência sem que haja necessidade disso.

  2. António Santos diz:

    Pois parece-me que quem está no campo da heresia não sou eu. Se não vejamos, e seguindo os seus pontos:
    1. Você confunde Anjos com alma humana (e não percebo porquê!) quando são totalmente diferentes. Alguma vez houve encarnação dum Anjo? Os Anjos existem e não precisam encarnar. Por vezes precisam ser vistos como o Anjo Gabriel ou o Anjo de Portugal, mas não encarnam ficando humanos. Isso só foi visto nos filmes de Wim Wenders.
    Arianismo não é chamado aqui para nada pois tem a ver com a negação de que Cristo seria verdadeiro Deus.
    2. O preexistencialismo foi condenado no sínodo de Constantinopla (543) e no de Braga (561). Segundo Orígenes a alma era condenada a viver num corpo por algum delito moral. Ora, por várias passagens da Escritura se comprova que não se pode dizer isso: Gen 1, 31, Gen 3, 1 ss, Rom 5, 12 ss e Rom 9 11.
    3. A pessoa humana é constituída de alma e corpo. É única e irrepetível. E Cristo veio salvar cada uma (com a sua alma e corpo). Se a alma andasse a saltitar de corpo em corpo, na ressurreição (ou também nega isso?) qual será o corpo que a alma vai tomar?
    Contra o preexistencialismo temos vários Padres da Igreja como: S. Gregório Nacianceno, S. Gregório Niseno, Santo Agostinho, São Leão I e S. Tomás de Aquino.

    Dou por encerrado este assunto e aconselho-o a ler algum manual de teologia dogmática e Suma Theologica I, 118, 3.

    Neste momento é mais importante unirmos esforços contra o lobby gay e tenho uma boa história para si pois se passou recentemente num colégio católico.
    Abraço!

    • O. Braga diz:

      1/ O arianismo não é só isso que você escreveu. Ário (falecido em 336 d.C.) defendia a ideia segundo a qual o Logos ou Filho de Deus foi criado do nada, exactamente como todas as outras criaturas e que, portanto, não é eterno. Dizia ele que, se no Novo Testamento é chamado o Filho de Deus, é no sentido em que o são todos os homens.

      Portanto, Ário não só recusava a eternidade do Logos, como recusava a ideia de pré-existência do espírito e da alma de Jesus Cristo. E foi neste último aspecto a que me referia.

      2/ Naturalmente que o que eu quis dizer não foi colocar em causa a eternidade do Logos, mas antes quis fazer uma analogia acerca da pré-existência do espírito de Jesus Cristo.

      Uma substância só é eterna se não tiver nem princípio nem fim. O eterno tem analogia no conceito matemático de infinito. Ou seja, a partir do momento em que uma coisa é criada, deixa de ser simultaneamente eterna e infinita. O universo, por exemplo, tendo sido criado, é finito, mesmo que não tenha fim: basta ter tido um princípio para o universo não ser infinito nem eterno.

      3/ Como lhe disse, a ciência já entrou na área da investigação da reencarnação!.

      Não se trata aqui da minha opinião: trata-se de investigação científica já em curso e que tem em atenção a experiência humana e a estatística. Ou será que você vai continuar a dizer que os dinossauros existiram há apenas dez mil anos, só porque vem escrito no Antigo Testamento ?!

      Uma das coisas que Orígenes defendeu foi a exegese dos textos bíblicos, e isso incomodou e incomoda muitos católicos agarrados à ideia da manipulação política da religião.

      4/ acho espantoso como alguns católicos defendem a ideia de que os padres deviam casar, ou que as mulheres deviam ser sacerdotisas, alegadamente porque “não é dogma” e que “é uma questão de disciplina”. Mas quando se trata de colocar em causa uma imposição política do imperador Constantino e da sua mulher (ex-prostituta) no concílio de Niceia, então já dizem que é dogma.

      Pois eu penso que os padres não devem casar nem as mulheres ser sacerdotisas, mesmo que não seja dogma — porque ambas as coisas vêm do exemplo pessoal de Jesus Cristo!!! mas nunca vi nada escrito que defendesse a ideia que Jesus Cristo era contra a ideia da reencarnação. Aliás, pelo contrário, a tese verosímil segundo a qual a família de Jesus Cristo era essénia (essénios) vai contra o putativo, invocado e alegado repúdio dele em relação à reencarnação.

      5/

      «Um dia, quando orava em particular, estando Ele (Jesus) apenas como os seus discípulos, perguntou-lhes: “Quem dizem as multidões que Eu sou?” responderam-lhe: “João Baptista; outros, Elias; outros, um dos antigos profetas ressuscitado.”
      Disse-lhes Ele: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Pedro tomou a palavra e respondeu: “O Messias de Deus.”»

      Lucas, 8, 18-20, Mateus 16, 13-20, Marcos 8, 27-30, João 6, 67-71

      Há passagens do Novo Testamento que o concílio de Niceia não alterou. Infelizmente, há católicos que não sabem ler senão os caracteres das palavras. A maior parte dos católicos nunca leu o Novo Testamento de fio a pavio; mas esses são os “bons católicos”: os que se apresentam perante outrem com a superioridade moral do bom devoto.

      Você não vai encontrar, em nenhuma passagem do Novo Testamento, Jesus Cristo condenar as pessoas que pensavam que ele era Elias, ou João Baptista reencarnado. Não vimos aqui Jesus Cristo dizer: “Essa gente, que assim fala, é insensata, porque não é possível que alguém possa renascer com a alma de Elias ou com a de João Baptista”.

      6/ um dia talvez você tenha uma experiência “perto da morte”, como eu tive, e só talvez aí você possa compreender aquilo que agora é para si incompreensível.

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