A Igreja Católica e Orígenes

No FaceBook, e relativo a este verbete meu, alguém escreveu o seguinte:

“Pré-existência da alma antes da encarnação? Não é o que defendia o Orígenes? Isso deu azo à má interpretação e faz com que ainda hoje os gnósticos acusem a Igreja de ter defendido a ideia da reencarnação no passado.

Católico de verdade aceita TODOS os dogmas da Igreja.”

Eis a minha resposta:

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Em Alexandria, Orígenes viu-se numa situação singular: tinha que evangelizar os homens e as mulheres da cidade. Com os homens, ele não tinha problema nenhum, e a evangelização seguia de vento em popa. Mas Orígenes compreendeu que sem a evangelização das mulheres, e porque são elas que educam as crianças, a evangelização da cidade não teria sucesso.

Mas os homens da cidade não queriam que as suas mulheres fossem evangelizadas por um homem, por razões culturais. As mulheres sérias e honestas não podiam conviver com homens que não fossem seus maridos. E Orígenes viu-se num impasse.

E foi assim que, para poder evangelizar as mulheres de Alexandria, Orígenes se castrou. Depois de castrado, os homens de Alexandria já permitiram que Orígenes convivesse e evangelizasse as suas mulheres.

A Igreja Católica tem sido muito injusta com alguns homens da patrística, como por exemplo Orígenes.

O concilio de Niceia, presidido pessoalmente por Constantino, eliminou alguns conceitos religiosos da patrística, e a reencarnação foi eliminada pelo simples facto de a mulher de Constantino ter sido, antes de casar com ele, uma prostituta – e segundo a teoria da reencarnação, os pecados graves desta vida serão redimidos e pagos noutra vida. Ora, esta teoria era insuportável para a mulher de Constantino, que influenciou o seu marido no sentido de a eliminar. O que foi feito.

Orígenes não foi um gnóstico. Um gnóstico da Antiguidade Tardia tinha a seguintes características: A gnose (ou gnosticismo) é uma qualquer doutrina metafísica de salvação religiosa por intermédio do conhecimento intelectual, e por isso sem o dom directo da Graça Divina.” Só quem não faz a mínima ideia de quem foi Orígenes, ou por má-fé, pode dizer que ele foi um gnóstico cristão.

Ser católico não é, por exemplo, aceitar o dogma que impôs a Inquisição. Isso não é ser católico. Ser católico não é condenar Orígenes por causa de uma linha ideológica que surgiu porque uma imperatriz tinha sido prostituta.

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2 respostas a A Igreja Católica e Orígenes

  1. João Duque diz:

    Orlando:
    Orígenes teve alguma das suas teses condenadas no referido Concilio de Constantinopla (pré-existência das almas, «apocatástase», etc.), mas foi sempre um teólogo muito lido («á sucapa»), embora devido a essa condenação, nunca fosse considerado «Padre da Igreja». Alguns consideram-no o maior teólogo cristão da Antiguidade, mesmo superior a Santo Agostinho. Alguns investigadores defendem que o seu tratado “Dos Princípios” foi falsificado pelos seus discípulos e que as teses são na verdade de «origenistas» (Evagro o Pôntico, por ex.) e não do mestre.
    No século XX houve um recrudescimento do interesse por Orígenes nos meios católicos, e mesmo um Papa com fama de «ortodoxo» como Bento XVI, dedicou-lhe uma das suas catequeses. De facto muitas das suas teses são fascinantes (pluralidade dos mundos habitados, possibilidade da redenção de todas as criaturas – homens e demónios inclusive, vários ciclos cósmicos, etc.). Mas não sei se ele defendeu mesmo uma «reencarnação» sucessiva das almas (humanas) neste planeta, tal como os espíritas modernos acreditam.
    Quanto aos rótulos de «gnóstico» (e outros), é preciso ter muito cuidado. Alguns católicos que se dizem «conservadores» e «tradicionais», quando não acusam os adversários sistematicamente de serem «modernistas» (partidários do Modernismo teológico condenado pelo Papa S. Pio X, em 1907) , utilizam esse apodo de «gnóstico» para tudo o que não aceitam ou não compreendem… e que lhes «cheira» ser demasiado subtil ou esotérico para as suas cabeças.

    • O. Braga diz:

      A tese de Orígenes acerca da pré-existência das almas nada tem a ver com a metempsicose (no sentido lato, no sentido da migração de almas de animais), por um lado, nem com a reencarnação segundo o espiritismo ou a teosofia modernas, por outro lado.

      No que respeita à relação entre fé e conhecimento, S. Anselmo defendeu a mesma coisa que Orígenes; no entanto, o primeiro é santo e o segundo foi condenado.

      A escolástica da Idade Média anterior à introdução de Aristóteles (Santo Anselmo, Hugo de S. Victor, S. Boaventura) baseia-se nas ideias de Orígenes acerca de Deus e o Mundo (expressas, por exemplo, em “Contra Celsum” ou em “De principiis”). No entanto, Orígenes foi condenado.

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