Os dogmas racionais e os dogmas irracionais

Por contraditório que possa parecer, um dogma – por exemplo, da Igreja Católica – pode ser racional, e outro dogma pode ser irracional. A religião utiliza meios e métodos semelhantes aos utilizados pela física; mas em vez de símbolos matemáticos, a religião utiliza imagens, símbolos e mitos como instrumentos de compreensão dos nexos de um mundo que excede a razão humana.

Para muitos físicos (para os “físicos trabalhadores”, mas não para os “físicos filósofos”) a equação de Schrödinger, por exemplo, é dogmática: é utilizada nos seus trabalhos como fazendo parte de uma espécie de “manual de instruções” ou de um “livro de receitas”, e esses “físicos trabalhadores” não pensam nas implicações filosóficas que a equação de Schrödinger possui em si mesma. Mas para os “físicos filósofos”, a equação de Schrödinger é uma construção matemática carregada de um simbolismo que a linguagem corrente não pode traduzir fielmente senão mediante imagens e metáforas – tal qual acontece na religião.

A filosofia também pode ser considerada uma ciência experimental no sentido em que acumula as experiências das tentativas humanas de explicação do Mundo ao longo de milhares de anos. E como a filosofia é uma componente essencial da teologia, esta não só pode ser considerada uma espécie de ciência experimental, mas também tem a característica da utilização de símbolos que traduzem a realidade que extravasa a razão humana — tal qual acontece na física.

Na ciência também existiram dogmas irracionais: por exemplo, a frenologia; ou a teoria de Ernst Haeckel segundo a qual a célula viva evoluía da matéria lamacenta (literalmente: a célula viva apareceria espontaneamente da lama). Mas também existiram dogmas racionais, como por exemplo a mecânica de Newton ou a teoria de Einstein.

O mesmo acontece na religião: existem dogmas racionais na medida em que são escorados na experiência humana através de milhares de anos – por exemplo, o dogma da Trindade, o dogma de Maria Imaculada de pecado, ou mesmo o dogma da transubstanciação. Estes são dogmas racionais.

E existem dogmas irracionais – por exemplo, o dogma que nega toda e qualquer pré-existência da alma, que foi imposto à Igreja Católica através da opinião pessoal de meia dúzia de pessoas influentes na Igreja do tempo do concílio de Niceia (Atanásio, Basílio, os dois Gregórios, e o próprio imperador Constantino e a sua mulher que tinha sido prostituta antes de se casar com ele).

Tal como na ciência, na religião devemos colocar em causa os dogmas irracionais. Um dogma irracional é aquele que recusa a experiência humana ao longo do tempo, e coloca em causa a realidade tal qual ela se nos apresenta.

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