Desidério Murcho e o economês

O Desidério Murcho revela aqui, pelo menos, um desconhecimento parcial acerca da realidade concreta (no “terreno”) da economia portuguesa, tanto nos aspectos intrínsecos como extrínsecos; e dentro desse desconhecimento parcial, separa os dois aspectos, como se tratassem de duas realidades distintas.

A primeira falácia de Desidério Murcho consiste em afirmar que o Estado português é mais intrusivo na economia do que, por exemplo, o Estado alemão – o que não é verdade. A virtude do Estado alemão em relação ao Estado português é que o primeiro é muito menos burocrático do que o segundo. Se retirarmos a burocracia da equação, o grau de intrusão dos dois Estados nas respectivas economias é equivalente. Por exemplo, o rácio percentual – em relação ao PIB – que existe entre a despesa do Estado alemão e a do Estado português é semelhante.

O que Desidério Murcho defende parece ser o seguinte:

  • a Alemanha tem uma percentagem do PIB de 45% afectada à despesa do Estado. Logo, conclui Desidério Murcho, Portugal deveria ter uma percentagem do PIB afectada na metade ou menos – por exemplo, 10% do PIB. E o ideal, segundo Desidério Murcho, seria que a despesa do Estado português fosse de 0% do PIB. Seríamos, então, todos alemães!

Em segundo lugar, o Desidério Murcho padece de uma fé metastática que decorre de uma interpretação delirante da realidade.

Dou um exemplo: o facto de as empresas portuguesas privadas (sublinho: privadas) venderem mais caro do que as suas congéneres alemãs, nada tem a ver com a vontade dos empresários, mas antes com a economia de escala e com a diferença de dimensão dos respectivos mercados internos. O conceito de “mercado único europeu” é maior embuste político depois da queda do muro de Berlim, porque o mercado é “único” apenas e só para quem tem, à partida, um mercado interno com uma dimensão tal que permita dissolver a concorrência das empresas dos mercados mais pequenos.

Dentro do Euro, não temos futuro como nação, e senão como colónia. E o que Desidério Murcho defende é o Portugal-colónia em nome do liberalismo económico.

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