Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (1)

«Toda a possibilidade cai não só quando há uma contradição intrínseca, que é o aspecto lógico da impossibilidade, mas também quando não há um material, um dado que se possa pensar.

Que exista uma possibilidade e, contudo, não haja nada real, é contraditório, dado que se não existe nada, não é dado nada que seja pensável, e existe contradição se todavia se pretende que qualquer coisa é possível.» – Emanuel Kant, in “Único Argumento Possível para a Existência de Deus” (1763)

O que é que Kant diz aqui?

Em primeiro lugar, a possibilidade de uma coisa – ou a possibilidade da existência de uma coisa – deixa de fazer sentido quando existe uma contradição intrínseca – segundo o princípio de contradição e o princípio de identidade – que anula essa possibilidade. Por exemplo, uma coisa não pode ser, e não ser, simultaneamente; ou, X não pode ser igual a X e simultaneamente diferente de X. A contradição, segundo Kant, anula a possibilidade.

Em segundo lugar, Kant diz que quando não há um material – ou seja, matéria, ou um dado deduzido da existência material – então não existe nada que seja pensável; e, por isso, o que não é pensável então não é possível. Para Kant, o real, neste contexto, é um dado que se possa pensar: e o pensamento geral do Iluminismo considerava que só se poderia pensar a matéria e os “conceitos sensíveis”. Hegel foi mais ou menos da mesma opinião de Kant (e dos outros iluministas), quando afirmou que “o real é racional, e o racional é real” : nada mais errado, se reduzirmos o “racional” ao princípio da não-contradição aplicada ao mundo do raciocínio humano.

A física quântica destruiu, sem dó nem piedade, o Iluminismo. O Iluminismo – e todo o seu legado cultural até aos nossos dias – está totalmente roto, mas muita gente ainda não se deu conta disso (incluindo a maçonaria).

Ao contrário do que Kant afirmou, a nível quântico, é a contradição intrínseca que permite a possibilidade, ou melhor, é um facto que a contradição intrínseca não só não anula a possibilidade, como é a condição da própria possibilidadenão se trata aqui da contradição extrínseca, ou entre duas entidades (por exemplo, a contradição entre tese e antítese, à moda hegeliana) mas da contradição intrínseca a uma mesma e só entidade.

A nível quântico, a complementaridade do “vector de estado” (ou “função de onda”) é, em si mesma contraditória, porque as partículas elementares aparecem alternada ou simultaneamente (estado misto) em dois estados distintos: ou são partículas/corpúsculos, e portanto têm massa e são propriamente matéria, e/ou aparecem em modo de ondas que não têm massa, e por isso não podem ser consideradas matéria.

E é da própria natureza contraditória da função de onda quântica (ou vector de estado) que surge a possibilidade, não só da ocorrência de eventos, mas também a possibilidade da própria existência da Forma das coisas que, através da força entrópica da gravidade, permitem, por assim dizer, à “matéria organizada”.

A quântica demonstrou que o real não é só o material, porque se assim fosse a onda quântica não seria real. Acontece que a onda quântica, embora não tendo massa, é tão real quanto a partícula que tem massa. Portanto, uma coisa não deixa de ser real por não ser matéria propriamente dita.

Kant – à semelhança de quase todos os iluministas, com poucas excepções como por exemplo Leibniz ou Lambert – reduziu a realidade ao empirismo da condição humana, ou seja, mutilou a visão humana acerca da realidade, fazendo com que os princípios da lógica que regem a vida quotidiana do ser humano – que é apenas uma parte da realidade – se aplicassem à realidade inteira. Seria como se alguém pusesse uns antolhos em cada ser humano, como se faz com os burros.

Naturalmente que segundo a concepção kantiana do mundo, Deus não tem um lugar objectivo (sublinho, para evitar protestos: objectivo). Mas, segundo essa mesma mundividência iluminista, a onda quântica também não tem um lugar objectivo na realidade. E a contradição lógica (porque a onda quântica é uma coisa, e simultaneamente não é essa mesma coisa) intrínseca da função de onda quântica é para Kant, e para o Iluminismo em geral, uma impossibilidade objectiva.

A conclusão que retiramos da autêntica destruição substantiva do Iluminismo pela quântica é a de que não devemos limitar ou reduzir o conceito de realidade a uma noção de realidade. E por isso não podemos afirmar peremptoriamente – como afirmam os positivistas, por exemplo – que um conceito não pode ser absoluto. A possibilidade de um conceito poder ser absoluto está sempre em aberto, desde que não usemos antolhos.

(este verbete segue noutro)

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Geral com as etiquetas , , , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s