Nem sábios, nem Esquerda, nem esta Direita

«Um sábio, que não seja bacharel, recebe esse grau de uma universidade, e os de licenciado e doutor, para poder entrar nessa universidade, que é hábil e competente para o fazer, por ter capacidade de saber, e por ser devido apenas a circunstâncias especiais que o sábio não possuía nenhum diploma científico oficial. Mas, sem dúvida, pareceria muito paradoxal, e até muito ridículo, que um grupo de indivíduos sem diplomas universitários conferissem a alguém, por exemplo, o grau de doutor em matemática. A competência por colação dos incompetentes não tem certamente senso comum.»A competência por colação

Um grau de uma universidade não produz necessariamente mais competência. Por isso é que Marinho Pinto (e muito bem!) exige um exame da Ordem dos Advogados para os novos licenciados em Direito. Um grau de uma universidade pode conceder a alguém um estatuto social que possibilite exactamente essa competência por colação de que nos fala a citação supra, por um lado, e por outro lado, o grau de uma universidade pode produzir alvarás de inteligência. Acontece que a concessão de um alvará de inteligência a um cidadão, por uma universidade, não tem senso-comum, porque a inteligência não é coisa que se compre, se venda, ou que se concessione à exploração comercial por alguns anos.

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Um ‘sábio’ contemporâneo

A única solução plausível para o problema da competência por colação das sociedades democráticas contemporâneas obtém-se através da criação de condições necessárias à proliferação de associações da sociedade civil, conforme escrito aqui. Através de um controlo social múltiplo, as associações fazem a crítica da (in)competência por colação que decorre do processo democrático. O problema é que o Estado cria dificuldades burocráticas consideráveis à criação espontânea de associações da sociedade civil, porque vê nelas a face do inimigo.

Os inimigos da multiplicação das associações da sociedade civil são, por um lado, a esquerda estatista e jacobina, e no seguimento das ideias de Rousseau de criação de um super-estado; e por outro lado, o liberalismo económico burguês e plutocrata, no seguimento das ideias de Hayek, que pretende também controlar o Estado através da sua redução à condição de “Estado Exíguo” (conforme termo de Adriano Moreira). Reduzir radicalmente a dimensão do Estado – como tenta fazer a Troika e Passos Coelho – é também uma forma de o controlar.

Entalado entre estas duas forças políticas, o associativismo tem sido condenado a uma existência insipiente. Parece não haver uma solução de controlo para a “incompetência de colação” que caracteriza o regime democrático.

A outra solução, a de uma sociedade governada por “sábios” não eleitos, já vem da República de Platão e com péssimos resultados. E, portanto, não é solução. Hitler foi eleito, mas a primeira coisa que ele fez foi acabar com as eleições, garantindo para si próprio o estatuto de sábio. Estaline não foi eleito democraticamente, mas nem por isso deixou de se considerar a si mesmo um sábio. A modernidade está cheia de sábios que trataram os povos como carne para canhão.

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