O dualismo céptico e radical de Kant

Se perguntarem a um céptico radical que se encontre em Lisboa, se às 11 da manhã de hoje haverá transeuntes na Avenida da Liberdade no Porto, a provável resposta será esta: “Não sei. Pode haver transeuntes ou não. A única forma de ter a certeza é ir ao local, àquela hora, verificar se há ou não”.

Um realista (de Realismo como corrente filosófica) em Lisboa dirá o seguinte: “Ao longo de séculos sempre houve transeuntes na Avenida da Liberdade do Porto às 11 horas da manhã. Por isso, baseando-nos na nossa experiência multissecular, podemos dizer que não só é provável mas até verdadeiro que existam transeuntes a essa hora e nessa avenida”.

Kant, na sua crítica da razão pura, escreve o seguinte:

“Toda a nossa intuição não é mais do a representação de um fenómeno ; as coisas que nós intuímos não são, em si próprias, como nós as intuímos, nem as relações entre elas são em si próprias tais como nos aparecerem;”

Até aqui, a “coisa” é aceitável: trata-se da tese de Kant segundo a qual o ser humano tem uma espécie de software na sua cabeça que interpreta o mundo: o cérebro não é um recipiente para onde são “atirados” os objectos do mundo, mas antes está programado naturalmente para interpretar o mundo e vê-lo de uma certa maneira. O mundo é visto pelo ser humano como uma pintura, e não como uma fotografia; mas uma pintura não deixa de reflectir o real. Mas Kant continua:

“E se tirássemos do centro o nosso sujeito ou mesmo só a constituição subjectiva da sensibilidade em geral, toda a constituição, todas as relações dos objectos no espaço e no tempo, bem como o espaço e o tempo desapareceriam porque, como fenómenos, não podem existir em si próprios mas apenas em nós.”

O que Kant quer dizer neste segundo parágrafo – à semelhança do lisboeta céptico – é que se eu não existisse, ou se o ser humano não existisse, o universo não existiria no espaço-tempo. “Não haveria nenhum transeunte na Avenida da Liberdade no Porto às 11 horas da manhã”.

Mas, por outro lado, Kant contradiz-se: diz ele, na mesma crítica da razão pura que, no homem, o acto de conhecer não significa “criar” – o que está correcto: o entendimento humano não produz a realidade através do conhecimento dessa mesma realidade. O homem descobre a verdade acerca da realidade, mas não produz nem cria essa realidade. Ora, se o homem não cria a realidade, conhecendo-a, então essa realidade existe independentemente do homem a conhecer ou não. A contradição consiste em afirmar, por um lado, que os fenómenos não podem existir em si próprios mas apenas em nós, e por outro lado dizer que o homem não cria a realidade no processo de conhecimento.

Kant vai buscar este cepticismo radical a David Hume, e depois retira-lhe o pessimismo humeano.

Se virmos bem, a diferença essencial entre Kant e Hume é uma espécie de dualismo que o filósofo inglês não tinha. Kant criticou o dualismo cartesiano mas adoptou uma outra espécie de dualismo, que consistia na oposição entre os conceitos de “intuição derivada”, por um lado, e “intuição originária”, por outro lado. A “intuição derivada” é, segundo Kant, a “intuição sensível” do ser humano; e a “intuição originária” é a “intuição intelectual” que Kant diz que é divina.

Porém, o dualismo de Kant é mais ilógico e ininteligível do que o dualismo de Descartes, porque aquele coloca o Homem e Deus em realidades totalmente separadas e sem alguma possibilidade de interacção ontológica. Descartes separou a alma do homem do seu corpo; Kant separou radicalmente o ser humano de Deus; e é nesta separação radical – à semelhança do que acontecia com os gnósticos da Antiguidade Tardia – que podemos detectar as influências gnósticas do seu pensamento.

No pensamento de um filósofo não conta a sua intenção, mas antes contam as consequências do seu pensamento para a sociedade coeva ou futura. Por exemplo, a ideia propalada segundo a qual Nietzsche não quereria contribuir para a ideologia nazi, é respeitável; mas a verdade é que as ideias de Nietzsche contribuíram para a formatação do nazismo. “De boas intenções está o inferno cheio”.

De modo semelhante, Kant poderia ter tido boas intenções com as suas ideias, mas as consequências delas foram devastadoras para a cultura antropológica europeia. Kant foi ainda pior do que Hume, porque os erros de Hume são facilmente detectáveis, ao passo que os erros de Kant são muito dissimulados na sua ambiguidade. Kant influenciou de tal forma a cultura antropológica europeia que ainda hoje há pessoas que, mesmo que inconscientemente, intuem que não têm a certeza se há transeuntes às 11 horas na Avenida da Liberdade na cidade do Porto, e que é necessário ir verificar ao local para se ter a certeza.

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