A redução da realidade à economia

Quando lemos alguns escritos bovinotécnicos (*), dá-nos a sensação de que eles pensam de que o “mercado” surgiu com Adam Smith; ou seja, antes deste não existia mercado. O mercado terá sido alegadamente uma invenção do liberalismo. E, portanto, toda a realidade é reduzida ao fantástico mercado (que não existia entre os selvagens anteriores ao surgimento espontâneo do mercado) e à economia.

mala-sem-fundo-300-web.jpg Assim, a ética, a metafísica, a lógica, a estética dependem apenas e só da economia que está a montante de todas essas categorias do conhecimento e da realidade; e, por isso, todas elas dependem da economia de mercado que – alegadamente – ainda não existia no tempo das feiras medievais – na Idade Média, alegadamente, existiam “feiras”, mas não existiam “mercados”; o mercado depende da “mão invisível” que terá surgido apenas na modernidade.

O que muitos liberais desconhecem é que Adam Smith foi buscar grande parte do seu pensamento aos filósofos e teólogos espanhóis dos finais da Idade Média. O próprio conceito de “mão invisível” não é de Adam Smith e pode ser detectado nos espanhóis de princípios e meados do século XVII. E os precursores da economia política foram os Fraticelli franciscanos da Alta Idade Média: foram eles que inventaram, por exemplo, o prémio de risco, o juro composto, e a Carta de Crédito bancária.

Os liberais nada mais fazem senão o que Karl Marx não deixou de fazer: reduzir a realidade à economia. E por isso, liberais e marxistas são complementares, completam-se uns aos outros. Liberalismo e marxismo são o Ying e o Yang da acefalia moderna.

E como os liberais submetem tudo ao mercado (incluindo a mãezinha deles), então a ética, a estética e a lógica também só existem em função do mercado. Se, por exemplo, o mercado decidir que “a lógica é ilógica”, qualquer liberal que se preze será ilógico em nome da lógica.

Talvez por isso é que os liberais falem ali em “fraccionamento da ética por tradição geracional“, porque consideram que os valores da ética são uma espécie de moda: tanto podem serem “assim” como “assado”, e a ordem dos factores é arbitrária. Para um liberal, qualquer valor da ética é como um saco de batatas: vale apenas e só aquilo que o mercado dá por ele.

E, mais grave (ainda)!: segundo os liberais, quem não pensa a realidade desta forma “liberal”, reduzindo tudo à economia e ao mercado, é porque é socialista.

(*) A bovinotecnia é a arte de tratar do “gado” de uma forma tal que se consiga fazer crer aos “bovinos” que serão livres se abandonarem o seu estatuto de bovinidade.

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