Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (4)

Das descobertas da física quântica decorrem algumas consequências para a teoria do conhecimento, o mesmo quer dizer, para a forma como vemos o mundo.

Por exemplo, o computador em que escrevo estas linhas, como todo o universo material, é composto por átomos; mas os átomos são essencialmente vazios. O teclado do computador contra o qual pressiono os meus dedos, são compostos por átomos sobretudo vazios. Quando teclo uma letra, e a partir desse vazio atómico comum ao meu dedo e à tecla pressionada, um conjunto de impulsos eléctricos da tecla depara com um conjunto de impulsos eléctricos do meu dedo. Decorre do vazio do átomo que nem o computador, nem a tecla, nem o meu dedo e nem eu próprio possuímos um recorte material ou uma superfície claramente delimitada e certa. Somos uma espécie de fantasmas cujos limites corporais não estão bem definidos.

Quando olho para o ecrã do computador, a distância que separa os meus olhos dele não pode ser medida com exactidão, mas apenas aproximadamente. E os impulsos eléctricos que constituem o Todo do computador ocupam menos do que um bilionésimo do espaço do que necessitaria para se apresentar aos nossos olhos com a forma que tem; por isso é que se diz que o nosso mundo é macroscópico, porque tudo parece ser aumentado sem exista (aparentemente) uma necessidade intrínseca para que isso aconteça – porque tudo o que existe em forma material e que nos aparece aos nossos olhos é constituído por átomos essencialmente vazios.

A cor preta do computador é apenas produto do software do meu cérebro, uma vez que os impulsos eléctricos dos átomos não têm qualquer cor. Enquanto escrevo, faço-o num remoto local de um planeta que gira à volta do Sol a uma velocidade de 30 quilómetros por segundo: metaforicamente, podemos dizer que bastaria um pequeno atraso do meu dedo, ao pressionar a tecla – uma qualquer coisa como uma pequena fracção de segundo -, para que o teclado e o computador ficassem a muitos quilómetros de distância de mim.

O nosso mundo dos átomos – a realidade microscópica – não é uma cópia da realidade macroscópica; em vez disso, possui uma estrutura totalmente diferente. Se os átomos são essencialmente vazios, isso não significa que sejam totalmente vazios: contem em si mesmos as chamadas partículas subatómicas, também conhecidas por partículas elementares. Muitas dessas partículas elementares existem apenas durante um período de tempo de 10^-23 segundos (1 negativo seguido de 23 zeros), ou seja, parece que “aparecem” do nada e imediatamente depois “desaparecem” para o nada. O número 10^-23 / segundo significa um milésimo da bilionésima parte de um centésimo da bilionésima parte de um segundo. Ninguém sabe de onde vêm essas partículas e para onde vão elas depois de uma existência tão efémera…

A comunidade científica – por exemplo, no CERN, na Suíça – pode fazer colidir uma determinada partícula elementar longeva com outra partícula elementar, e desse choque, realizado a altíssima velocidade entre as duas partículas, surgem outras partículas que podem ser “novinhas em folha” e do mesmo tipo da partícula destruída pela colisão entre as duas partículas iniciais. Ou seja, do choque entre duas partículas elementares podem surgir partículas novas, o que leva à conclusão absurda segundo a qual as partículas elementares são compostas por elas próprias. E depois da colisão entre essas duas partículas que as destruiu, a totalidade da massa das partículas elementares existentes depois do choque pode ser várias vezes superior à totalidade da massa inicial da partícula destruída em primeiro lugar pelo choque entre as partículas.

As partículas elementares não são “coisas”, segundo a concepção kantiana de “coisa” ou de “fenómeno” – porque as partículas elementares não se comportam conforme as regras da natureza macroscópica ou “mundo das coisas”. Fritjof Capra escreve o seguinte (in “O Tao da Física”):

“As partículas subatómicas não são coisas, mas sim ligações entre coisas e estas “coisas” são, por seu turno, ligações entre outras “coisas”, e assim por diante. Isto significa que não podemos decompor o mundo em unidades minúsculas, existentes independentemente umas das outras. Ao penetrar na matéria, não encontramos elementos básicos isolados, mas sim uma rede complexa de relações entre as várias partes de uma totalidade única”.

Ou seja, se eu decompuser o meu computador até aos seus componentes mais microscópicos, verificaria que já não tenho diante de mim coisa nenhuma, mas apenas relações – ao contrário do que afirmava Kant, que só poderiam existir relações entre coisas.

Os processos atómicos do meu computador – como em tudo – não ocorrem em um determinado momento e em um determinado lugar, possuindo apenas a “tendência” para ocorrer. Os processos atómicos são apenas probabilidades, parece serem eles próprios que “decidem” se surgem ou não, sem que exista uma causa responsável por essa “autonomia” dos processos atómicos.

A quântica, para além de colocar Kant em maus lençóis, destruiu a essência da dialéctica de Hegel:

“Do ponto de vista da mecânica quântica, não há um mundo objectivável, existente permanentemente no tempo, mas, de certa maneira, este mundo acontece de novo em cada momento. O mundo de agora não é idêntico ao mundo do momento passado”.Hans-Peter Dürr.

No fundo, seria como se o universo fosse recriado de novo a cada segundo cósmico. Começo a dar razão a Newton, em detrimento de Leibniz, quando aquele dizia que Deus intervém no mundo a cada momento para garantir a sua estabilidade. O conceito de “matéria”, que continua a ser misterioso para a própria ciência, já não justifica que alguém diga de si mesmo que é “materialista”: pode-se ser egoísta, o que é coisa diferente do disparate que é alguém classificar-se de “materialista”.

(segue)

Os verbetes desta série podem ser lidos na categoria Kant e quântica .

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