A ciência, as normas (ética) e a teologia cristã

Sobre este texto alegadamente de Olavo de Carvalho, que começa em “de novo a indistinção entre o normal, o natural, o saudável e o moralmente certo”, e acaba em “escrevo essas coisas em benefício apenas da clareza mental”, pretendo expressar uma pequena divergência, como segue:

É verdade que em muitos domínios da Natureza, o acto sexual tem por fim o acasalamento e não a fertilização necessária para a procriação. Por exemplo, nos seres vivos mais primitivos, a reprodução obtém-se através da divisão da célula sem cópula. Em muitos animais superiores, pelo contrário, a fertilização necessária para a procriação obtém-se sem cópula entre os indivíduos – por exemplo, em animais de transmissão indirecta de esperma, como em salamandras ou em algumas espécies de peixes.

Portanto, podemos concluir que, na natureza não-humana, a cópula, a procriação e o acasalamento cumprem tarefas diferentes e são separáveis umas das outras.

Nos babuínos, a cópula realiza-se muitas vezes sem ejaculação. Nos insectos, pode-se observar que, muitas vezes, o macho não introduz os seus órgãos genitais nos da fêmea, mas antes “pica” a fêmea nas costas – o que não é natural, considerando a posição dos órgãos sexuais. Mas, na natureza, isto não leva à eliminação de um comportamento supostamente não-natural, mas antes leva à normalização que consiste no facto de a constituição física da fêmea desenvolver uma nova abertura nas costas, ou seja, no lugar onde se realiza a “picada” do macho, abertura na qual o macho copula.

Por isso, podemos concluir que as alterações do comportamento de acordo com a natureza, no mundo animal, progridem de acordo com a micro-evolução; e, neste sentido, podemos dizer que não é possível, no mundo animal, deduzir quaisquer regras para o modo como os órgãos podem ser utilizados a partir da sua constituição física e da sua forma.

Em suma, no reino animal, a sexualidade constitui um aspecto importante do acasalamento, não estando porém orientada exclusivamente para a procriação. Portanto, a investigação do comportamento dos animais pode parecer demonstrar que as ideias tradicionais sobre aquilo que é “natural” – e por isso, “normal” – e “não natural” – e por isso, “anormal” – baseiam-se num conhecimento insuficiente da Natureza, sendo, por isso, erradas. Sublinho: “pode parecer demonstrar”.

É preciso chamar à atenção para o facto de a biologia – e as ciências da natureza em geral, que incluem a medicina – poderem criticar as normas (morais), mas não são capazes de fornecer uma fundamentação para essas mesmas normas (as existentes, ou quaisquer outras), porque a situação dos animais na Natureza não pode ser transposta sem reservas para o mundo dos seres humanos.
Não é possível deduzir valores e normas dos factos ( sofisma naturalista ou apelo à natureza ). Não é legítimo reduzir o Homem a um animal irracional, comparando-o com um babuíno, ou com uma salamandra, ou com um insecto.


Até aqui, parece que estou totalmente de acordo com Olavo de Carvalho, ou seja, constata-se a necessidade de separação entre as ciências da natureza, por um lado, e a ética, por outro lado.

Porém, há aqui um problema: é que apesar das ciências da natureza – e, por isso, a medicina – não poderem fundamentar as normas, elas (as ciências da natureza) podem contudo desempenhar um papel crítico nessa fundamentação das normas; e por isso não é racional que se separe totalmente a ciência, por um lado, da ética e mesmo da teologia, por outro lado. E é aqui que não concordo totalmente com Olavo de Carvalho.

Ademais, não podemos comparar todos os “hábitos danosos à saúde”, metendo-os todos no mesmo saco (ou em uma mesma categoria). Por exemplo, um “hábito danoso” pode ser involuntário ou voluntário: posso trabalhar num ambiente fechado porque sou obrigado para ganhar a vida. Não é possível comparar o “hábito danoso” de um mineiro que permanece fechado 10 horas no interior de uma mina de carvão, por um lado, com o “hábito danoso” de tomar no cu, por outro lado.

E mesmo nos “hábitos danosos” voluntários, existe uma hierarquia que reflecte a própria hierarquia ética dos valores dos Mandamentos judaico-cristãos: por exemplo, a acédia era um pecado mortal na Idade Média, mas foi entretanto retirado da lista, e por isso não se compara com o assassínio. Mesmo sendo voluntário, o hábito danoso de levar uma vida sedentária não pode ser classificado, do ponto de vista ético e mesmo do ponto de vista médico, no mesmo nível ou na mesma categoria do “hábito danoso” de tomar no cu.

Em suma: a medicina não pode fundamentar as normas (morais, e mesmo as jurídicas), mas pode desempenhar um papel crítico na fundamentação das normas. E, por isso, não podemos separar a ciência, da ética, por um lado, nem a teologia pode ignorar totalmente a medicina, por outro lado.

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