Somos certezas. Somos fé.

Alguém escreveu aqui um artigo com o título: “Somos incertezas. Somos fé” (ver ficheiro PDF). O título é auto-contraditório, e essa contradição reflecte-se em todo o artigo. E por isso não posso concordar com ele. O assunto é algo complexo, e vamos a ver se o consigo condensar num verbete, como mandam as regras da Internet.

1/ a certeza é uma atitude mental que acompanha a representação de um juízo como sendo verdadeiro e que resulta, ou da intuição, ou da evidência. Ressalvo que “verdade” é entendida aqui não apenas como “verdade científica”, por um lado, e por outro lado, “evidência” não é só resultado da verificação e confirmação empíricas.

2/ a certeza não pode, por sua própria definição, fazer parte da ciência positivista. Em ciência falamos de “verdade” que obedece a um determinado paradigma. A verdade científica está em constante mutação, e por isso é sempre uma “verdade provisória”.

3/ quando falamos em “dúvida”, devemos distinguir entre “dúvida céptica” (por exemplo, Bertrand Russell; ou filosofia da ciência), por um lado, e “dúvida metódica” (Descartes; ou método experimental), por outro lado.

4/ agora tenho que me refugiar em Santo Anselmo e no seu opúsculo “Proslógion”. Dizia o Santo que existe necessidade de crer para compreender – a fé em busca da razão e da compreensão, e não a inteligência à procura da fé; ou seja, não é através da razão que se alcança a fé – continua o Santo -, e se a razão humana não for capaz de esclarecer a existência de Deus, isso em nada abala a sua convicção e a sua crença.

Este receituário de Santo Anselmo é um juízo universal, na medida em que existem excepções: já aconteceu que ateus inteligentes descobriram a fé através da razão. Mas, em geral, Santo Anselmo tem razão. Aplica-se aqui o mesmo princípio do sentimento ético que não é adquirível através da razão (no sentido de “raciocínio”): o sentimento ético, assim como o sentido estético, necessita de educação – embora algumas pessoas tenham maior intuição ética, ou estética, do que outras.

“Para o não-crente, a intuição permanece escondida” (Santo Anselmo). E como só é possível ter certeza, ou através da intuição, ou através da evidência, o não-crente só recorre à evidência. Porém, esta evidência, a que o não-crente recorre é, em grande parte, uma evidência empírica (que decorre da dúvida metódica), e tudo o que não faz parte dessa evidência empírica entra, para ele, na esfera da “dúvida céptica” de que falei acima.

5/ a evidência é o grau absoluto da certeza; a evidência não é só o conhecimento que se impõe “à vista”, mas é também o conhecimento que se impõe através da intuição.

Mas a evidência não é só passiva e estática: também pode ser, e é, dinâmica. Por exemplo, para uma determinada pessoa, pode não ser hoje evidente a acção do Criador, e através de uma situação-limite que o convide a uma reflexão profunda, essa evidência pode surgir amanhã. A evidência pode ser uma “luz” que raia na escuridão de todas as reflexões e pensamentos anteriores.

A evidência – ao contrário do que defendeu Leibniz – não é só dependente de um critério subjectivo: é também um critério racional; e aqui voltamos a Santo Anselmo. Por exemplo, é absolutamente racional dizer-se que, se o universo existe, terá que ter uma causa. Ou seja, é evidente que deve existir uma causa para o universo: esta evidência é simultaneamente racional e intuitiva, e segundo o critério de fé racional, de Santo Anselmo.

6/ para um homem de fé, as únicas incertezas que existem são as que decorrem da contingência que é a possibilidade imanente de uma coisa acontecer, ou não. Em metafísica, o contingente é aquilo que não tem em si mesmo a sua própria razão de ser (não tem si mesmo a sua “causa”, digamos assim); e em teologia, a contingência tem como corolário lógico a necessidade da Primeira Causa, ou o Ser Necessário, ou Deus.

Neste sentido, a contingência, como incerteza, não coloca em causa a fé que resulta da simbiose entre a razão e a intuição. Essa fé é racional, à maneira de Santo Anselmo, e por isso e neste contexto, a fé é uma certeza que não é inteiramente subjectiva, mas antes é intersubjectiva. Essa fé decorre de uma evidência que se escora na acção conjunta da razão e da intuição.

7/ em suma, quem diz que existe uma ligação positiva e estreita entre fé e incerteza, está errado, porque a afirmação é contraditória.

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