O último livro de Luís Portela: capítulo I

1/ O Acordo Ortográfico

Eu estive para não comprar o livro de Luís Portela com o título “Ser Espiritual: Da Evidência à Ciência”, porque está publicado segundo o Acordo Ortográfico. Quando quero algum livro em especial, ou ele não é editado segundo o Acordo Ortográfico, ou procuro uma edição antiga em um alfarrabista. O progresso não é uma lei da natureza e o Acordo Ortográfico não significa evolução da língua, mas antes significa involução (como é óbvio e evidente!).

A ideia segundo a qual um livro publicado em Portugal segundo o Acordo Ortográfico pode vender no Brasil, é ilusória. Um editor brasileiro que se preze, em geral, veta sistematicamente as obras de autores portugueses. Em geral, um bom brasileiro é anti-português.

Nunca nenhum título de um livro de um qualquer autor brasileiro publicado em Portugal foi alterado.

Mas veja-se, por exemplo, o caso de Mia Couto que, mesmo não sendo português (ele é moçambicano), teve que alterar os títulos dos seus livros para que um qualquer editor brasileiro aceitasse a sua publicação no Brasil. Este fenómeno brasileiro é único em todo o mundo: nunca passaria pela cabeça, por exemplo, de um editor americano ou australiano alterar um título de um livro de um autor inglês. Talvez pudesse acontecer esse fenómeno na Índia ou no Suriname, mas ainda não aconteceu. Não vou referir aqui a razão desta “originalidade” brasileira porque não quero meter todos os brasileiros em uma mesma categoria.

O que me surpreende é que Luís Portela tivesse “alinhado” com o politicamente correcto, porque sendo ele o autor do livro, poderia perfeitamente exigir que o dito fosse publicado em português correcto – seria o que eu faria se um dia publicasse um livro. Esse “alinhamento” de Luís Portela com o politicamente correcto é mau sinal.

2/ A questão sobre a relação entre sofrimento e evolução espiritual

O primeiro capítulo do livro trata da relação existente entre sofrimento, por um lado, e evolução espiritual, por outro lado. Aquilo que se pode ler a seguir não é um resumo do que Luís Portela escreveu, mas antes é a minha visão crítica daquilo que Luís Portela escreveu. Para se poder perceber a diferença entre uma coisa e outra, o leitor terá que ler o referido livro.

Luís Portela atribui o sofrimento a causas cármicas, por um lado, e ao meio-ambiente, por outro lado. Ou a ambos os factores conjugados. Até aqui, o argumento é relativamente pacifico e consensual. Mas há dois aspectos que eu queria sublinhar e que parecem estar ausentes neste capítulo do livro.

O primeiro é o de que o sofrimento faz parte, de uma forma inexorável, da própria condição humana. Não há como fugir a isto.

Ninguém, com dois dedos de testa, duvida da existência do Jesus histórico. Podemos não acreditar no conteúdo dos Evangelhos (nos milagres de Jesus, por exemplo), mas está fora de qualquer dúvida que o Jesus Cristo histórico existiu, e que é um facto que Ele foi crucificado. E não há talvez sofrimento mais excruciante que todo o processo documentado da crucificação de Jesus Cristo. O exemplo de Jesus Cristo significa que o sofrimento é parte integrante da natureza humana. Eric Voegelin tem um trecho lapidar acerca do sofrimento humano e da sua relação com o Homem moderno, como segue:

« Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas.

É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos.

Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar activamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação.

Um, só vive o além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. »

Este trecho de Eric Voegelin entronca no segundo aspecto a que me queria referir: a evolução, para além de individual, é sobretudo colectiva, e foi essa a razão por que Jesus Cristo nos deu o testemunho de passar por um cruciante sofrimento. Não é possível uma evolução individual propriamente dita sem alguma evolução colectiva. Luís Portela escreveu o seguinte na página 13:

« Seres de diversos níveis espirituais, habitando a Terra em simultâneo, vamos aprendendo uns com os outros. Com os mais evoluídos espiritualmente aprendemos a seguir os seus exemplos; e com os menos evoluídos a não cometer os erros que neles identificamos. A sós, pelo exercício da meditação, temos condições para escolher o caminho que, de facto, nos interessa seguir. »

Não chega, porém, que defendamos o nosso interesse “evolucionista”, ou o nosso caminho de evolução espiritual, e que utilizemos os exemplos dos outros, de forma positiva ou negativa, para afirmar em nós próprios o nosso caminho e a nossa escolha. Há que também agir sobre os outros – porque a evolução espiritual é sobretudo colectiva.

Utilizando uma linguagem budista: ele há carmas individuais, familiares, tribais, ou nacionais.

Quando o poeta Teixeira de Pascoaes se referia ao “nacionalismo integral” português, referia-se subliminarmente a uma espécie de “carma nacional português” que tinha determinadas características muito próprias que ele próprio identificou na sua obra, e a que Fernando Pessoa bastamente fez referência na sua obra em prosa. Mas também existem carmas familiares, por exemplo; os próprios fenómenos que a epigenética procura explicar estão intrinsecamente ligados aos carmas familiares que se verificam e se reflectem na dimensão da realidade da vida material do Homem.

Não há evolução espiritual individual de facto sem alguma evolução espiritual colectiva – que é permanente e repetitiva na sua lógica, a cada época. Por isso, precisamos de agir sobre os outros associando a intuição e a razão, a fé e a ciência. E, muitas vezes, em uma situação de relação de causa-efeito, as nossas acções podem parecer negativas aos olhos de algum incauto, embora se possam realizar por uma boa causa colectiva.

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