O Taoísmo e a ética

Quando Pilatos perguntou a Jesus Cristo “¿O que é a Verdade?”, Ele não respondeu. E no entanto, os Evangelhos estão cheio de menções circunstanciais de Jesus Cristo em relação à Verdade. E Jesus Cristo não respondeu porque não é possível definir “Verdade” embora se possa falar dela, assim como não é possível definir “Realidade”. Mas não só: também não é possível definir “Tempo”; é de Santo Agostinho a conhecida frase:

” ¿O que é, afinal, o Tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas se me perguntarem e eu quiser explicar o que ele é, já não sei”.

S. Tomás de Aquino definiu assim “Verdade”: « A Verdade é a adequação do intelecto à Realidade ». Mas ficamos na mesma, porque se não podemos definir Realidade, então a própria definição de Verdade não define nada. O conceito de realidade é infinito no sentido em que está para além da própria finitude do universo; e porque o conceito de realidade é infinito, o conceito de verdade – segundo a definição de S. Tomás de Aquino – também é infinito, ou está Para Além do universo.


Até aqui, existe uma determinada concordância entre a filosofia e teologia cristãs tradicionais, por um lado, com o Taoísmo a que se faz referência aqui, por outro lado. E mais: até à revolução inglesa não existia na Europa uma noção política e/ou cultural de “direitos” no sentido moderno. Em vez disso, existia a “lei natural” dos estóicos que, em grande parte, se identificava com a “lei eterna” da escolástica católica.

Diz o trecho o seguinte:

“O Tao é transcendente e imanente, perpassa toda a natureza que nos abarca; mas porque não age com um propósito não podemos retirar dele qualquer legitimação da nossa conduta, se procurarmos formulá-la em termos finalísticos, intencionais.”

Não é verdade – como se afirma no trecho – que no Taoísmo não exista, ou esteja difusa, a noção de “sentido” (“não podemos retirar dele qualquer legitimação da nossa conduta, se procurarmos formulá-la em termos finalísticos, intencionais”),

O SENTIDO dá origem ao um. O um dá origem ao dois. O dois dá origem ao três. O três gera todas as coisas”. – Lao Tsé, “Tao te King”, Parte I


“Existe uma coisa que está indistintamente completa. Ela já existia antes que o Céu e a Terra existissem, tão silenciosa, tão solitária. Ela está sozinha e não se transforma. Podemos chamar-lhe a mãe do mundo. Não conheço o seu nome. Chamo-lhe SENTIDO.” – Lao Tsé, “Tao te King”, Parte II

O Sentido (com maiúscula) taoísta existe de facto. O Sentido taoísta corresponde ao Deus cristão. A grande diferença é que o Sentido (Tau) não pode actuar ele próprio na realidade humana ou realidade macroscópica, ao passo que no catolicismo, Deus pode actuar na realidade humana, seja por Ele próprio, seja através da Trindade. Mas que existe a noção de Sentido no Taoísmo, disso não há qualquer dúvida. E esse Sentido (Tau) é, em si mesmo, um Fim, e por isso não podemos dizer que não existe, no Taoísmo, uma concepção “finalística” de sentido que sirva de modelo à “legitimação da nossa conduta”.

E o sentido da vida humana, no Taoísmo, decorre do Sentido (Tau), porque “o três gera todas as coisas”. E o que é extraordinário – e que muita gente desconhece, e como está implícita na citação supra de Lao Tsé – é que no Taoísmo existe uma Trindade à semelhança do que acontece no catolicismo. Na escolástica taoísta – porque também existiu uma escolástica no Taoísmo – desenvolveu-se uma espécie de doutrina da Trindade na qual eram venerados os três soberanos celestiais que regiam o passado, o presente e o futuro, e que eram considerados divindades superiores.

É claro que existe uma ética taoísta muito bem definida, que consiste na adaptação e adequação da conduta humana ao Sentido (Tau). Quem quiser atingir o Sentido tem que praticar a virtude (“te“), tem que ser benevolente, sociável, mas sobretudo decente (nos costumes!) – a ideia segundo a qual a ética taoísta não dá grande importância aos costumes, é falsa e forjada por interpretações ocidentais abusivas e politicamente correctas.

Naturalmente que a ética taoísta é diferente da do Confucionismo que exige irrevogável e peremptoriamente o “agir correcto”, ao passo que a ética taoísta é sobretudo mística. Mas esta concepção mística da ética tem consequências sociais e políticas que desembocam em uma utopia semelhante à da “República” de Platão: a revogação de todos e quaisquer privilégios, o retorno a uma sociedade sem classes (ou seja, o “bom selvagem” de Rousseau), e a sociedade liderada por um rei-filósofo (um sábio).

Mas nem por isso a ética taoísta deixa de ser normativa, assim como a ética utópica implícita na “República” de Platão era, de facto, normativa. Qualquer putativa não-normatividade é sempre uma forma de normatividade.

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