A confusão do Neanderthal contemporâneo

O Padre Portocarrero de Almada confunde aqui “divisão do trabalho”, que é uma característica endógena do homo sapiens que nem sequer Karl Marx colocou em causa, por um lado, com “machismo e repressão da mulher”, por outro lado. Muito sinceramente, não gosto do discurso do Padre, porque não contribui para a resolução do problema da permutabilidade dos indivíduos (não só entre homem e mulher) na sociedade actual, e pelo contrário acaba por ser um esteio para essa mesma permutabilidade. Quando, numa sociedade, quaisquer dois indivíduos são absolutamente permutáveis e intermutáveis, vivemos numa sociedade orwelliana e de pesadelo.

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O Neanderthal actual

A ciência antropológica chegou à conclusão de que o homem de Neanderthal extinguiu-se principalmente porque, na sua sociedade, não existia a divisão do trabalho. Por exemplo, a mulher Neanderthal ia à caça com o homem, e as crianças ficavam abandonadas e entregues a si próprias no acampamento. Análises aos ossos de crianças de indivíduos do Neanderthal revelaram sistematicamente uma má nutrição. Pelo contrário, o homo sapiens foi original quando adoptou, desde cedo, a divisão de trabalho na tribo: a mulher fazia umas coisas, e o homem fazia outras coisas; e quem ganhava com isso era a tribo inteira.

O problema que se coloca hoje, quando o homo sapiens adopta o comportamento do Neanderthal, não é já o problema da “má nutrição física”, porque existe um Estado que supre parcialmente as necessidades de alimentação das crianças abandonadas. O problema é hoje o da “má nutrição psicológica e espiritual”, por assim dizer, porque uma criança precisa de ser educada em um ambiente em que as funções e papéis dos dois sexos sejam distintos e facilmente identificáveis.


Gostaria de citar, a propósito, duas passagens do livro “História da Vida Privada”, edições Afrontamento, 1989. Na página 46, acerca do divórcio em Roma ainda no tempo da república (e, por isso, antes do império), lê-se o seguinte:

« [O divórcio] é igualmente fácil, do ponto de vista do Direito, tanto para a esposa como para o marido, e é tão informal como o casamento: basta que o marido ou a mulher se separem com a intenção de se divorciarem. Por vezes, os juristas tinham razões para hesitar: simples zanga ou verdadeira separação? Não era estritamente necessário prevenir o ex-cônjuge, e em Roma havia divorciados por única iniciativa da esposa, sem eles o saberem.

A esposa, quer tome a iniciativa do divórcio, quer seja repudiada, abandona a casa do marido, levando o dote, se este existir. Em contrapartida, se houver filhos, estes parecem ficar sempre com o pai. »

Portanto, aquilo a que assistimos hoje com a lei de José Sócrates do “divórcio unilateral e na hora” é o regresso à concepção de casamento da Roma antiga e pagã. Não há nada de original na lei de José Sócrates.

Mas, apesar da mulher se poder divorciar por sua única iniciativa e a seu bel-prazer na Roma antiga, a divisão de trabalho e as funções e papéis atribuídos a cada um dos sexos não foi colocado em causa pelos romanos. Ou seja – ao contrário do que acontece hoje com a ideologia de género de origem marxista cultural -, os romanos não estabeleceram uma ligação directa e proporcional entre a autonomia da mulher, por um lado, e a extinção das funções sociais de cada um dos sexos, por outro lado. E ainda não havia o estoicismo ou o Cristianismo!

Primeira conclusão: a autonomia da mulher não depende da eliminação da divisão de trabalho que existe naturalmente em função das capacidades endógenas de cada um dos sexos.


A segunda citação do livro (página 48) fala da diferenciação cultural introduzida pelo estoicismo nas relações entre os dois sexos:

«Na primeira moral [a moral republicana, anterior ao império e ao estoicismo] dizia: “Casar é um dos deveres do cidadão”; a segunda [a moral estóica e imperial], dizia: “Se se quer ser um homem de bem é necessário fazer amor só para ter filhos; o casamento não serve para prazeres venéreos”.

A primeira moral não põe em questão o fundamento da regra [do casamento]: dado que só as núpcias legítimas permitem, de forma regulamentar, procriar cidadãos, é preciso obedecer e casar. A segunda, menos militarista, quer descobrir um fundamento para as instituições; se o casamento existe e ultrapassa largamente o dever de ter filhos é porque deve haver outra razão para a sua existência, fazendo viver em conjunto, durante toda a sua vida, dois seres racionais, esposo e esposa; será, portanto, uma amizade, uma afeição durável entre duas pessoas racionais

Vemos aqui como a Roma do império, através da moral estóica (o Cristianismo veio muito mais tarde!), cultivou a igualdade ontológica entre os dois sexos na sociedade sem que as diferenças naturais fossem negadas e/ou escamoteadas. A dignidade da mulher romana (pelo menos, nas elites) não dependia da sua profissão, da sua função social e dos papéis que assumia na sociedade.

E isto nada tem a ver com machismo e repressão da mulher que o discurso do Padre faz transparecer – na linha estrita do discurso negativo e politicamente correcto do actual Papa! Pelo contrário, na Roma do império, a mulher podia divorciar-se sem “dar cavaco” ao marido, e era considerada como um dos dois seres racionais que compunham o casal. E tudo isto sem que a mulher alienasse a sua função e papel específicos na sociedade, sem os quais qualquer sociedade acabará, de uma maneira ou de outra, de sofrer o destino do Neanderthal.

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