As tentações de Francisco I

Este Papa é de uma ambiguidade notável. Reparem neste texto, através do qual ele denuncia as “tentações da Igreja” mas não diz o que defende em alternativa. Faz um relatório daquilo que não interessa à Igreja, mas não diz aquilo que, segundo a sua (dele) opinião, interessa. Faz o inventário dos males sem dizer qual é o bem.

Este Papa critica determinadas idiossincrasias de outros católicos revelando a sua própria idiossincrasia que consiste na afirmação positiva do seu puritanismo; mas, ao mesmo tempo que critica determinadas idiossincrasias de católicos, recusa-se a criticar as idiossincrasias dos não-católicos – por exemplo, este Papa recusou fazer qualquer referência à lei brasileira do aborto quando esteve no Brasil nas JMJ. O objecto da crítica deste Papa é exclusivamente os católicos que ele considera relapsos: falem-lhe, os jornalistas, do aborto ou dos gays, e veremos da parte dele, ou o silêncio, ou uma atitude politicamente correcta de conciliação.

Do referido texto, ressalto o seguinte trecho:

A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se uma solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a “segurança” doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura “recuperar” o passado perdido.”

Eu não vejo qual seja o nexo entre o pelagianismo, por um lado, e o tradicionalismo, por outro lado. Em síntese, o pelagianismo consiste na recusa das consequências, para o ser humano, da “queda”. Ou seja, o que este Papa faz aqui é criar um nexo absurdo, porque não existe necessariamente qualquer relação de nexo entre o pelagianismo e o tradicionalismo.

Por outro lado, através da expressão “na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa”, este Papa vai ao arrepio da tradição da Igreja Católica até Bento XVI, quando ele defende a ideia segundo a qual a Igreja Católica se deve adaptar a cada espírito do tempo e à moda. E quem não se adapta à moda do espírito do tempo é absurdamente catalogado de “pelagiano”.

Este Papa pensa que se podem mudar alguns símbolos da Igreja Católica sem se mudar as respectivas representações (“na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa“). Diz ele que existem símbolos – que são indeterminados, porque ele, na sua ambiguidade característica, não diz quais são – que já não possuem “capacidade significativa”. Ou então, defende a erradicação de algumas representações da Igreja Católica através da alienação dos seus respectivos símbolos, embora não diga, ambiguamente, quais são a representações a erradicar.

Prefere criticar o mal nos outros sem expor claramente as suas ideias. Aliás, as suas ideias consistem na crítica ao mal dos outros. Criticando os gnósticos, assume uma atitude puritana gnóstica que não vimos nunca nos dois Papas que o precederam.

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