Santana Lopes confunde “a corda” de um violino de Chopin com “acordo” ortográfico

« “O Reino de Portugal e dos Algarves devide-se em Círculos Judiciaes: estes em Comarcas; as Comarcas em Julgados; e os Julgados em Freguezias. Quando uma Freguezia não chegar a ter cem vizinhos, ficará reunida á mais próxima.
Haverá em Lisboa um Supremo tribunal de Justiça com jurisdicção em todo o Reino.

Uma Lei especial marcará as suas atribuições» (Excerto do Decreto n.º 24, de 16 de Maio de 1832, sobre a Reforma das Justiças).”

Era assim que se escrevia no século XIX. A língua mudou e a Pátria, obviamente, não acabou. »

Pedro Santana Lopes

Quando era Secretário-de-estado da Coltura do governo de Cavaco Silva (tal mestre, tal aprendiz), Santana Lopes disse um dia: “adoro ouvir os violinos de Chopin” (sic). Andei nas discotecas à procura de CD’s de Chopin em violino, mas até agora nunca encontrei uma só obra de Chopin tocando violino. Por isso, como o Pedro Santana Lopes foi governante e eu não, só posso inferir que eu não encontrei os violinos de Chopin porque não faço parte da elite política.

1/ Em primeiro lugar, por exemplo, a língua francesa não sofreu nenhuma reforma ortográfica, salvo erro, desde o século XVIII. E não me recordo de ter lido alguma coisa acerca da última reforma ortográfica na língua inglesa (de Inglaterra). Portanto, a ideia de Pedro Santana Lopes segundo a qual “é normal a língua mudar”, só existe na cabeça de quem gosta dos violinos de Chopin.

2/ A mudança da língua, no sentido de “mudar por mudar”, é um fenómeno jacobino e revolucionário. Quando falamos em mudança, temos que distinguir dois tipos de mudança:

a) a mudança enquanto modificação do sujeito (de uma pessoa), total ou parcial, por um lado;
b) e por outro lado, a mudança enquanto transformação de uma coisa em outra coisa [Kant].

Na modificação do sujeito, a essência (o fundamento) do sujeito não se altera; ao passo que na mudança enquanto transformação de uma coisa em outra, o objecto deixa de ser uma coisa para ser outra coisa totalmente diferente na sua essência.manuela-ferreira-leite-santana-lopes-300-web.jpg

Por exemplo, uma metanóia religiosa pode mudar um indivíduo na sua mundividência e/ou no seu comportamento, mas não o muda na sua essência enquanto indivíduo – ou seja, não muda o fundamento da natureza humana.

Em contraponto, uma mudança em um modelo de automóvel – ou na língua escrita – pode mudar a própria essência e o conceito de automóvel – por exemplo, a diferença essencial que existe entre um automóvel eléctrico e um automóvel a gasolina.

No caso do ser humano – no caso a) – , essa mudança não elimina dele os estádios culturais anteriores em que se manifestou, ao longo do tempo, a sua essência e a sua natureza enquanto ser humano: os valores pretéritos da cultura permanecem no ser humano em função da própria natureza humana, e podem reaparecer no futuro, embora reinventadas e renovadas na sua expressão cultural, mas mantendo um idêntico fundamento que se escora na própria natureza do ser humano.

Mas quando mudamos uma coisa em outra coisa – caso b) – alienamos sempre qualquer valor original dessa coisa que mudamos. E por isso, no caso b), não podemos “mudar por mudar”: a mudança, neste caso, deveria ser um meio e não um fim em si mesma. “Mudar por mudar” é transformar a mudança em um fim em si mesma, na utópica procura do “Homem Novo” que a república jacobina já nos desenganou.

3/ a haver necessidade de mudança, essa mudança tem que ser racional. Ou seja, a mudança não pode ser objecto de caprichos de quem adora os violinos de Chopin. Ora, este Acordo Ortográfico é tudo menos racional. Convinha que Pedro Santana Lopes não confundisse “a corda” de um violino de Chopin, por um lado, com “acordo” ortográfico, por outro lado..

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