No que respeita à língua, do Brasil só vem merda

«Alguns podem pensar que ao escrever “penço” estou cometendo um erro de gramática. Não. O erro, isso mesmo, erro é ortográfico. Tanto já se comentou por aqui em acerto e erro, adequado e inadequado, que acredito que a confusão agora está completa.»

Marcia Meurier Sandri, Mestre em Língua Portuguesa UERI

Que me perdoem os amigos brasileiros, mas já não aguento mais! Puta que pariu! Em matéria de política da língua “portuguesa”, a grande diferença entre Portugal e o Brasil é que a de que a oposição ao Acordo Ortográfico, a existir no Brasil, não é organizada, ao passo que os defensores brasileiros do Acordo Ortográfico estão fortemente organizados – e a razão pela qual os putativos opositores brasileiros ao Acordo Ortográfico não estão organizados é a de que (apesar da aberração do Acordo Ortográfico) pensam que “o Brasil vai tirar vantagem”. Mas não vai.

Enquanto que os defensores portugueses do Acordo Ortográfico andam envergonhados, os defensores brasileiros do Acordo Ortográfico andam orgulhosos. E esta diferença faz toda a diferença.

Vamos definir alguns conceitos recorrendo a um dicionário, antes de prosseguir na desconstrução deste raciocínio tipicamente brasileiro.


Ortografia (do latim ortographia que por sua vez deriva do grego orthographia): parte da gramática que ensina a escrever correctamente as palavras de uma língua.

Gramática: (do latim grammatica que por sua vez deriva do grego grammatike): tratado dos factos da linguagem falada e escrita e das leis que a regulam.

Convenção: do latim conventio, que significa “pacto”: resultado de um acordo explícito ou tácito.

Já agora, a definição de “representação“: termo que designa qualquer imagem ou pensamento que se forma no psiquismo consciente, e que se supõe responder a um elemento exterior. Do ponto de vista da filosofia, também podemos definir “representação” como acto pelo qual o espírito torna presentes os seus objectos mediante a construção de imagens mentais.


A seguir, o problema é o de saber se uma língua é um mero sistema de sinais – conforme defendido por Ferdinand de Saussurre, o fundador da linguística – ou, em vez disso, é um sistema de símbolos. E aqui está o busílis da questão.

Émile Benveniste , para além de ter refutado uma concepção “behaviourista” da linguagem (que é o que está subjacente ao fundamento ideológico do Acordo Ortográfico) demonstrou que uma língua é um sistema de símbolos e não um mero sistema de sinais, quando ele verificou que as categorias lógicas de Aristóteles reproduzem as categorias gramaticais da língua grega antiga, sendo que a universalidade dessas categorias lógicas de Aristóteles devem ser adaptadas para se tornarem inteligíveis em outras línguas.

Um sinal não é a mesma coisa que um símbolo. O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado (ver definição acima de “representação”), enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente.

O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva e que adquire uma experiência intersubjectiva ou colectiva) que o sinal não tem.

Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

A ortografia, para além de ser um conjunto de sinais [por exemplo, o alfabeto], é um sistema simbólico coeso que o Acordo Ortográfico pretende destruir.

Muita gente pensa que o significado da língua não se altera através da eliminação das características etimológicas da língua, como por exemplo, a supressão das consoantes mudas. Concebendo a língua como um sistema de sinais, pensam que mudando a constituição de uma palavra – ou seja, mudando um mero sinal – o seu significado mantém-se exactamente igual ao significado anterior à mudança.

«Duravão as Cortes e as instâncias dos povos querendo que S. A. se coroasse dizendo que o havião aclamar. Porem S. A. impidio isso, porque os povos estavão resulutos a isso, mais do que a pagar os tributos necessários. Sucedeo nas Cortes em S. Roque, aonde se junta o estado da nobreza, como em S. Domingos o eclesiástico, e o dos povos em S. Francisco, que sentando-se acaso o Duque de Cadaval em o banquinho do Secretário delas, que era o Marquês de Gouveia, que ainda se não começavão, o qual lugar é no topo da casa, junto de um bofete, donde principião os bancos pela casa abaxo em que se sentão os 30.»

“Governo do Príncepe Dom Pedro regente de Portugal”, citado do livro “Portugal, Lisboa e a Corte de D. Pedro II e de D. João V – Memórias Históricas de Tristão da Cunha de Ataíde, 1º Conde de Povolide”, página 99, 1990, Chaves Ferreira – Publicações, S. A.

Mudando as palavras mudam-se os símbolos – e não os sinais -, porque uma língua, para além das palavras, tem uma morfologia e uma sintaxe que implicam previamente uma simbologia. E, para a esmagadora maioria dos brasileiros, este texto não é “português” mas antes é chinês: tornou-se ininteligível. Por isso é que a literatura brasileira é muito pobre se tivermos em consideração a população do Brasil. E o que parece é que o Brasil, não contente com a pobreza endógena da sua literatura, pretende exportar a sua indigência literária para todo o mundo de língua portuguesa.

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5 respostas a No que respeita à língua, do Brasil só vem merda

  1. Não é pelo texto ter sido escrito por um luso que ele se torna ininteligível aos brasileiros, poderia ter sido escrito por um vizinho e à maioria do povo ele seria igualmente ininteligível. Isto porque, na verdade, o Brasil é um país de analfabetos funcionais.

    Quanto ao acordo ortográfico, tenho uma completa indiferença. Dado que nesse assunto, o verdadeiro CRIME, o erro irreparável, foi a mudança do sistema etimológico ao fonético na ortografia da língua portuguesa. E, infelizmente, há que se dizer que foi Portugal quem o cometeu, em 1911. Ora, ficar chorando por um ‘c’ em atriz, ou um ‘p’ em adoção e outros, é tolice de quem desconhece a história e de que muito pior já foi feito.

    • O. Braga diz:

      1/ Se repararmos no tom do seu comentário, ele assenta nos habituais e conhecidos preconceitos brasileiros — e aqui, “preconceito” deve ser entendido como “preconceito negativo”, que é aquele que não admite discussão e se fecha em uma espécie de dogma, e porque existem os preconceitos positivos que são aqueles que estão abertos à discussão.

      É claro que quando eu escrevi que “já não aguento mais”, não estava a recriminar o povo brasileiro, mas antes as elites brasileiras. Como é possível uma Mestre em língua portuguesa afirmar implicitamente que “a ortografia não faz parte da gramática”?!

      Enquanto o Brasil não tomar como sua — apropriar-se dela — a literatura portuguesa, vamos continuar a assistir à degradação da língua portuguesa no Brasil e, por isso, em todo o espaço lusófono.

      2/ O problema maior não é o de o Brasil — ou outro país qualquer — ser um “país de analfabetos funcionais”. O problema maior é o de a elite querer que o seu país seja de analfabetos funcionais. Existe aqui uma clara intencionalidade das elites.

      3/ É tolice pensar que um erro justifica outros erros. Não é por se ter cometido um erro no passado que todos os erros do presente e do futuro estão automaticamente justificados.

  2. Você está, como diria meu avô, “montado na razão” quando diz só vir merda da intelligentsia acadêmica brasileira no que toca à língua portuguesa e outras questões lingüísticas em geral. Acrescento, infelizmente, que essa burrice se verifica na maioria dos cursos de Humanas, onde uma obtusa ideologia política esquerdista imiscui-se no livre pensamento. Junte a esses tolos lingüistas justamente esse viés demagogo-esquerdista e você terá mestres na arte dos disparates (e infelizmente quem tem pautado as “diretrizes oficiais” da língua é justamente esse tipo de gente).

    Lendo meu comentário, vi que exagerei num ponto: a “simplificação” da ortografia em 1911 não foi assim nenhum crime. De fato, outras línguas como o espanhol e o italiano o fizeram e estão muito bem obrigado (pra ficar apenas nas línguas românicas). Na França, há polêmica entre partidários dos dois sistemas, mas me parece que a questão da tradição lá é forte e uma mudança muito radical ainda está longe.

    O que não podemos é viver pulando de “acordos” a “acordos”, infelizmente o que acontece desde 1911.

    Portugal tem que ter muita prudência pra lidar com essas questões com o Brasil, porque está lidando com um país com sistema de educação falido. Veja essa reportagem: http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=444534
    (No Brasil, 38% dos universitários são analfabetos funcionais). Note que já não falamos do povo, mas sim da classe universitária…

    Cumprimentos

    • O. Braga diz:

      Repare bem numa coisa:

      NENHUMA LÍNGUA CULTA DO MUNDO SE ESCREVE CONFORME SE FALA. Repito: NENHUMA LÍNGUA DO MUNDO.

      Portanto, as suas referências ao espanhol e ao italiano não tem nada a ver com aquilo que se está a passar com este Acordo Ortográfico. Note-se que eu não sou, por princípio, contra UM Acordo Ortográfico; sou contra ESTE Acordo Ortográfico.

      O Acordo Ortográfico parte de um pressuposto: deve-se escrever conforme de fala. segundo este critério, este texto português que se segue, está de acordo com esse princípio, porque é assim que se fala em uma certa região de Portugal:

      Álvaro Santos – “Binho”
      05.07.2012

      Acordei
      e alebantei-me.
      Coxei-me.
      Procurei
      as chabes…
      Encontrei.
      Meti-as
      à porta.
      Em caja
      entrei.
      Na cojinha
      o bagaxo
      Busquei.
      Olhei à bolta,
      não encontrei.
      Oubi a garrafa
      Tombar
      no roupeiro.
      AH!
      Ao quarto
      rumei.
      E cuidadojamente
      entrei.
      Não hoube
      berreiro.
      Estranhei…
      A Maria
      Taba
      no xubeiro.
      Ah, prontos,
      lá xeguei.
      Reparei
      num pó axim branco no ar…
      Huumm…
      Neboeiro?
      Abri
      O roupeiro
      Uma mão
      paxa-me o bagaxo.
      Era o padeiro.
      Xaí de caja,
      pelas escadas
      rebolei.
      Boltei
      para a rua.
      Jiguejaguei.
      À porta da padaria
      numa cuscubilheira
      esbarrei.
      Bia
      Bar
      Da
      Mer
      Da!
      Recomendei.
      A padaria
      contornei.
      Às boltas,
      às trajeiras
      lá xeguei.
      À janela
      de xima
      um calhau
      atirei.
      No bidro
      nem xei como
      lá axertei.
      A padeira
      à janela
      bei.
      Abriu
      as portadas
      e me biu.
      No peitoril
      entre os bajos
      Poujou
      Xenxual
      o xeu xeio.
      E xorriu.
      Tens o bagaxo?
      Perguntou ela.
      Tenho xim.
      Respondi.
      Atão xobe,
      porra!
      Dixe ela.
      E xubi.

  3. Ana Horta diz:

    Recuso terminantemente o AO. Qualquer dia ninguém vai saber ler quanto mais escrever. Não vou desaprender o que tão bem aprendi.

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