João César das Neves e o Papa Francisco I

Era inevitável. As justificações para a acção de Francisco I já começaram há muito tempo na estranja, e agora o João César das Neves toma, em Portugal, as dores de alma. Ou seja, teme-se “a entrada de leão e saída de sendeiro”, porque “quem não quer ser lobo não lhe veste a pele”.

Referindo-se a Francisco I, João César das Neves começa o seu texto com qualificativos como, por exemplo, “personalidade cativante”; e que Francisco I “tem traços únicos” (como se cada ser humano não fosse único e irrepetível); que tem um “carácter encantador” (como se “carácter encantador” fosse uma qualidade objectiva: por exemplo, para muitos nazis, Hitler também tinha um “carácter encantador”); e que “o mundo e a Igreja ainda não compreenderam totalmente o Papa Francisco I” (mas o João César das Neves já o compreendeu).

Depois, João César das Neves continua com a sua análise subjectiva acerca do Papa Francisco I – o que, aliás, vai de encontro à imposição, na cultura antropológica dos católicos, do império da subjectividade que este Papa encarna. Ele é “sábio, límpido e transparente”; ele é “mesmo genuíno” (o qualificativo “genuíno” é uma forma politicamente correcta de fugir ao adjectivo “coerente”)

O cognome deste Papa é o de “Papa ambíguo”; e este qualificativo é baseado em factos, concretos e objectivos, e não em estados de alma. Hiperbolizando, diríamos que Francisco I adaptou a ética intencionalista (sublinho: a ética, e apenas e só a ética) de Pedro Abelardo à modernidade da Igreja Católica.

Quando escrevemos palavras belas acerca de algo ou alguém, devemos basear-nos em factos, na lógica e na razão – a não ser que escrevamos poesia, onde as palavras são muitas vezes belas, mas com uma diferença: a poesia é filosofia sem lógica. O que o João César das Neves fez foi um panegírico poético, subjectivista e desprovido de lógica – porque, em contraponto, há panegíricos e encómios racionais e objectivamente fundamentados. Mas voltemos ao texto de João César das Neves.

Comparar o cardeal Bergoglio com o Papa João Paulo II – como fez João César das Neves – é idêntico a comparar o cardeal Karol Józef Wojtyła com o Papa Francisco I.

O que João César das Neves escamoteia é o facto de o Papa Francisco I não ter deixado de ser o cardeal Bergoglio, ao passo que o cardeal Karol Józef Wojtyła reconheceu, logo no seu primeiro dia de pontificado, que “tinha que aprender a ser Papa” (sic). O Papa Francisco I ainda vai a tempo de seguir o exemplo do Papa João Paulo II.

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