O Papa Francisco I e o Intencionalismo de Abelardo

Em um postal anterior escrevi que o Papa Francisco I adaptou a ética intencionalista de Pedro Abelardo à actualidade doutrinal da Igreja Católica. Desde já convém dizer que eu escrevi “adaptou”, e não escrevi “adoptou”: “adaptar” é ajustar, mais ou menos, uma ideia a outra ideia diferente, ao passo que “adoptar” e aceitar e seguir integralmente uma ideia. A ética de Abelardo não foi adoptada por Francisco I, mas podemos detectar objectivamente alguma adaptação intencionalista na ética do Papa.

A doutrina moral de Pedro Abelardo é conhecida por Intencionalismo, ou “doutrina da indiferença dos actos externos”. Quando o povo diz que “de boas intenções está o inferno cheio”, Abelardo pensa exactamente o contrário: “só é possível a salvação através das boas intenções”.

O Intencionalismo não é exactamente um subjectivismo do tipo de David Hume, porque este último tem como centro o Homem, ao passo que o primeiro tem como centro Deus. Mas uma adaptação da ética intencionalista a uma doutrina religiosa (católica, mas não só) vai de encontro ao subjectivismo humeano e à religiosidade New Age que prevalece hoje na nossa sociedade.

Para Abelardo, apenas e só a intenção moral é susceptível de qualificação moral – qualquer que seja o acto exterior. O acto exterior é bom ou mau apenas e só em função da intenção do agente e, portanto, o acto em si mesmo é moralmente indiferente. É por isso (segundo Abelardo) que nenhuma acção – nem mesmo a crucificação de Jesus Cristo! – pode ser dita má a priori, “não sendo importante a este respeito o que se faz, mas o espírito no qual se faz” (Dialogus).

Por outro lado, (segundo Abelardo), acontece muitas vezes que fazemos o que Deus quer que façamos sem que seja nossa intenção fazê-lo. Neste caso, não agimos bem, ainda que se realize alguma coisa de bom (Abelardo contraria o valor do conceito de “Graça”, de Santo Agostinho). Por mais que o Homem faça aquilo que Deus quer que ele faça, só e exclusivamente a boa intenção torna a acção boa. É que, alegadamente, é o interior da pessoa que determina o valor moral do que “fazem as mãos e a boca”.

Para Abelardo, a necessidade do desejo natural exclui a noção de pecado (ver o discurso de Francisco I utilizando a palavra “gay” que tem uma clara conotação determinista e naturalista) – o que vai contra a doutrina de Santo Agostinho da “queda” e da “graça”. E depois, dentro da linha contra Santo Agostinho, Abelardo diz que um pecado cometido por ignorância não pode tornar o homem culpável (a esquerda marxista cultural não diria melhor): ou seja, o desconhecimento da lei justifica a prevaricação – porque o pecado propriamente dito, precisa Abelardo, compreende sempre um desprezo do Criador (“contemptus creatoris est“, Ethica, 6).

Mas, no Dialogus, Abelardo diz que não podemos saber por que razão Deus quer uma coisa e não outra (“rationabilem habet causam, licet nobis incognitam“). Não podemos, por isso, estar seguros da bondade objectiva das nossas intenções: ainda que todos os homens julguem por unanimidade que é bom fazer uma coisa, tal coisa pode ser um mal segundo o juízo divino (em Abelardo, não existe qualquer racionalidade na moral: a moral e a ética são irracionais, porventura no sentido de “para além da razão”).

Cabe à consciência ser a última instância de avaliação moral, e “apenas existe pecado contra a consciência” (Ethica) – o que é evidente em Francisco I quando, por exemplo, perdoou os pecados dos católicos, por via de uma absolvição geral e “por atacado” através do Twitter). Ou seja, a julgar pelas ideias de Abelardo, Hitler nunca pecou, porque quem não tem consciência, não peca.

Não existe ainda uma encíclica escrita apenas por Francisco I. Quando ela surgir, servirá também para corroborar ou negar a influência do Intencionalismo na sua ética. Entretanto, já sinto muitas saudades de Bento XVI e de João Paulo II.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Geral com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s