O saber e a prova: a verdadeira Idade das Trevas é hoje

Quando eu vejo um raio, pressuponho um trovão. Por vezes o trovão não surge porque o raio está muito longe, mas, regra geral, a seguir a um raio vem um trovão. Esta é a constatação empírica da lei natural da causa e efeito. O raio, e o trovão que se lhe segue, são “interpretados” pelos nossos sentidos através de uma espécie de software que existe no nosso cérebro, e por isso dizemos que são “evidentes”: não só o raio e o trovão são “evidentes”, como o nexo causal que os une também é “evidente”. Mas a partir do momento em que queremos estabelecer uma lei física que descreva detalhadamente esse nexo causal “evidente”, entramos necessariamente na “teoria”.

«As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecerem para sempre conjecturas ou hipóteses» – Karl Popper, em conferência proferida em 8 de Junho de 1979 no Salão Nobre da Universidade de Frankfurt , por ocasião da atribuição do grau de Doctor Honoris Causa

Kant quis dizer a mesma coisa que Karl Popper embora utilizando outra linguagem:

«Ciência genuína só pode chamar-se aquela cuja certeza é apodíctica: o conhecimento, que unicamente pode conter certeza empírica, só impropriamente se pode chamar saber.» – prefácio dos “Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza”:

«O entendimento cria as suas leis… não a partir da Natureza, mas prescreve-as à Natureza.» – “Crítica da Razão Pura”

A segunda citação de Kant significa o seguinte: a lei da gravidade, por exemplo, foi criada pelo entendimento, não a partir da Natureza, mas o entendimento impôs essa lei à Natureza. O Homem, ao estabelecer a lei da gravidade (que serve aqui como exemplo), quis que ela se tornasse universal e válida em qualquer ponto do universo; mas não há garantia de que a lei da gravidade seja válida em qualquer ponto do universo, ou não há garantia de que a lei da gravidade se aplique da mesma forma em qualquer ponto do universo; não há mesmo garantia de que a lei da gravidade não esteja incompleta.

A primeira citação de Kant significa que só é verdadeiro conhecimento, o juízo sintético a priori. Ou seja, o empirismo explica apenas o domínio do empírico. O cérebro humano entra imediatamente em dificuldades logo que começa a reflectir sobre coisas que não servem para a sobrevivência imediata, e não há nada que tenha uma validade intemporal que possa ser deduzido da experiência. Em bom rigor, não vivemos no mundo, mas apenas na imagem que os nossos cérebros fazem desse mundo através de categorias pensamento e de experiência adquiridas no contexto de adaptação ao meio-ambiente (se quiserem, podem-lhe chamar “evolução”).

Quando vemos uma maçã, vermelhinha, imaginamos, antes de a comer, que ela é doce e saborosa. Mas, de facto, a maça não é doce nem vermelha: ela contém apenas determinadas moléculas e reflecte um determinado comprimento de onda do espectro de cores. E é o nosso cérebro que “interpreta” essas moléculas e o espectro de cores da maçã. E seria absolutamente pertinente perguntarmos se o universo se tornaria escuro se todos os cérebros humanos desaparecessem, porque “claro” e “escuro” não são propriedades do mundo, mas apenas experiências da visão: ou melhor, são percepções que surgem quando ondas electromagnéticas de um determinado comprimento incidem sobre a retina do olho.


Agora, passo a citar um comentário feito aqui:

“Uma crença é crer em algo sem que seja necessário recorrer a provas concretas da sua veracidade.”

Repare-se quem escreveu esse comentário não parece ser um iletrado. Provavelmente aprendeu “aquilo” numa qualquer universidade. Ou seja, segundo aquela ideia, a lei da gravidade, por exemplo, não é uma crença. E depois há o problema da “prova”: em rigor, não pode ser encontrado uma prova concludente para uma evidência tão simples como a existência de um mundo exterior a nós próprios. Kant chamou a isto o “escândalo da razão”. A moderna teoria da ciência formula, com Karl Popper, uma versão mais moderada do “escândalo da razão” de Kant: segundo Karl Popper, “o mundo exterior [a nós próprios] é uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”.

Enquanto os nossos estudantes universitários não compreenderem isto, a nossa cultura intelectual continuará em decadência e arrastará para a lama a nossa cultura antropológica. A verdadeira Idade das Trevas é hoje.

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