O fim do discurso

O discurso é o raciocínio, ou a sequência de raciocínios, presentes mediante uma ordem metódica. Embora seja impossível que um discurso seja totalmente coerente, o discurso tem que partir de uma base lógica e seguir a lógica formal. O estruturalismo, o desconstrutivismo, e agora o construtivismo, destruíram o discurso e em nome da ciência, chegando ao ponto de hoje já não se saber bem o que é ciência e o que não é.

O “fim do discurso” está bem patente na crítica que o blogue Rerum Natura faz a este artigo no pasquim Público . Em vez de “fim do discurso”, a Helena Damião chama-lhe “Tudo se mistura e se confunde “. Ora, quando tudo se mistura e se confunde, então já não há discurso: em vez disso, há uma algaraviada de ideias desconexas.

A ciência é vista de duas formas: ou as ciências ditas “exactas” (física, química, etc.) – de que não faz parte a matemática que se baseia em juízos sintéticos a priori e, por isso, é mais uma “arte fundamental” do que uma ciência; o matemático é mais um artista e um esteta (no bom sentido) do que um cientista -; ou um método ou “forma de pensar”. E aqui é que está o problema: na “ciência” concebida como uma “forma de pensar”: a ciência concebida como “forma de pensar” é filosofia.

Com todo o respeito por quem não concorda com esta ideia, as “ciências sociais ou humanas” não são ciências no sentido exacto, porque dependem, a cada momento, da interpretação das intenções humanas (Wilhelm Dilthey). Nem sequer se podem chamar de “ciências moles”: uma “ciência subjectivista” não é ciência. Nas “ciências sociais e humanas”, as previsões falham invariavelmente: basta verificar o que se passa com a Economia.

A partir desta concepção de “ciência” como “forma de pensar”, tudo é permitido (“Vale Tudo”, ordena Feyerabend). Por exemplo, vale afirmar, como fez o cientista Stephen Hawking no seu último livro, que “o universo surgiu do nada”, eliminado qualquer nexo causal no fundamento do universo; e, como sabemos, sem nexo causal não há ciência.

O triunfo do dogmatismo não faz parte do desenvolvimento da ciência propriamente dita, porque na ciência vista desta forma não existe qualquer indicador infalível para a verdade baseada em factos – independentemente da validade filosófica do conceito de “facto”: mesmo que a realidade (propriamente dita) exceda infinitamente a ciência, existe um ponto de contacto entre realidade e ciência; neste sentido, e apesar do “facto” entendido como problema filosófico, a ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver no mundo: o controverso “facto” é, apesar de tudo, o ponto de partida da investigação científica.

A ciência não pode ser vista como uma substituta da filosofia e/ou da religião. A ciência teve tanto êxito precisamente porque não coloca, de forma consciente, determinadas questões filosóficas – o que não significa que estas questões não devam ser colocadas. Mas a colocação dessas questões é filosofia, e não ciência. E o que o artigo do pasquim Público faz é confundir ciência com filosofia.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Politicamente correcto com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s