Será Portugal um país inviável?

1/ Existem em Portugal três tipos de pessimismos: o pessimismo sebastianista (que clama pela volta do Encoberto), o pessimismo europeísta (que diz que Portugal é inviável, como país e nação, sem a União Europeia) e o pessimismo marxista (que diz que só com uma ditadura estatista Portugal terá futuro).

Estes três pessimismos geram mundividências distintas. Por exemplo, o pessimismo europeísta é compartilhado por um largo espectro partidário, que vai desde o Partido Socialista ao CDS/PP, passando pelo Partido Social Democrata, de Passos Coelho, ou de Cavaco Silva (porque são dois partidos diferentes: o primeiro segue Hayek e o segundo segue Keynes). O pessimismo europeísta é de “banda larga”, por assim dizer, porque é o mais influente na cultura portuguesa.

O sebastianismo, segundo o conceito dele elaborado por Fernando Pessoa, continua presente em algumas franjas da cultura. É um pessimismo que se baseia numa ucronia – não propriamente tradicionalista, porque a tradição pode não ser a base ou o fundamento de uma ucronia, e porque a tradição tem valores intemporais que não dependem da moda de cada época.

O pessimismo marxista tem, em Portugal, uma desproporcionada e irracional influência na cultura: depois da queda do muro de Berlim, alegadamente tornou-se “soberanista”, e aglutina uma série de movimentos políticos que vão do Partido Comunista à chamada esquerda radical do Bloco de Esquerda, do MRPP e de outros grupelhos.

Estes três pessimismos existem em função uns dos outros, em uma dialéctica que se confunde a cada momento; alimentam-se uns aos outros, formam uma lógica política destrutiva. Qualquer optimismo existe apenas em função de um destes pessimismos: por exemplo, quem vê um bom futuro para Portugal na integração federalista portuguesa na União Europeia – que passa pela alienação do Estado português e pela submissão canina de Portugal ao directório da União Europeia -, só é optimista porque parte do pessimismo de “banda larga”. Uma situação semelhante passa-se com os outros pessimismos. O optimismo do Partido Comunista dos “amanhãs que cantam” existe em função do pessimismo marxista.

Os três pessimismos partem do princípio (inconsciente ou esconso) de que Portugal é inviável, como nação, como país, como povo, como Estado; os três pessimismos não confiam no povo português e remetem, ou para a dominação estrangeira, ou para um Estado mais ou menos totalitário, a “salvação do país”. A política portuguesa actual é soteriológica: qualquer desses pessimismos procura uma “salvação” que não é legítima e endógena ao país e ao povo português.

2/ Países europeus mais pequenos que Portugal – em território, em recursos naturais e em população – são considerados viáveis. Por exemplo, a Dinamarca, a Irlanda, a Bélgica. Portugal tem a zona económica marítima exclusiva maior da Europa – e a frota pesqueira portuguesa foi desmantelada pela União Europeia. Mas a culpa não é só da União Europeia do directório: é sobretudo do pessimismo de “banda larga”, que agrilhoa o povo a uma utopia maçónica dos Estados Unidos da Europa, e que coloca essa utopia acima dos interesses mais básicos do povo.

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3/ A corrupção generalizada é parasita desses três pessimismos; a corrupção alimenta-se deles. Os três pessimismos geram um medo do futuro que, por sua vez, é terreno fértil para a proliferação da corrupção . Não existe tal coisa de “corrupção exclusiva do Estado”: a corrupção existe numa dialéctica entre o Estado e o sector privado. Quando se diz que “a redução do Estado ao seu mínimo múltiplo comum pode eliminar a corrupção”, está-se, mais uma vez, a enganar o povo – porque o combate à corrupção não depende apenas da privatização ou da estatização da economia.

O combate à corrupção depende da lei e do respeito pela lei – e não de lucubrações políticas sobre um Estado exíguo de tipo neoliberal, ou de um Estado máximo de tipo marxista. Em Portugal, as leis são propositadamente mal feitas pela assembleia da república para que a lei contra a corrupção não possa ser efectiva. Se os tribunais não funcionam, esse facto é propositado: por um lado, pretende-se uma lei para pobres e outra lei para ricos, e por outro lado, pretende-se que a aplicação da lei seja mais célere ou mais lenta dependendo das influências políticas e partidárias subjacentes a cada processo judicial.

A corrupção alimenta-se do medo que os três pessimismos incutem na cultura nacional.

4/ É normal que existam, em qualquer país do mundo, pessimismos nacionais: o que não é normal é que esses pessimismos interajam de uma forma tal que conduzam à total destruição de um país. Só com a eliminação da dinâmica política conjunta desses três pessimismos, Portugal encontrará o seu caminho normal e realista para prosseguir a construção do futuro.

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