O valor (1)

Temos vindo aqui a falar de cultura, de ética e de valores. O que é o “valor”? No seu livro “Tratado dos Valores” (com cerca de 850 páginas, dependendo da edição), Louis Lavelle define o valor como “espírito em acto” (página 744).

Há dias, no FaceBook, alguns “católicos fervorosos” acusaram-se de perfilhar o “arianismo” porque eu via a Santíssima Trindade da Igreja Católica, não como um dogma, mas antes como um símbolo (a minha concepção da Santíssima Trindade pode ser lida neste verbete ).

Como podem ler no referido verbete, eu comecei por dizer que “Deus tem muitas propriedades”; e também escrevi o seguinte:

“Na linguagem simbólica: Deus é Filho, na pessoa de Jesus Cristo. Mas isto não significa que Jesus Cristo seja o próprio Deus.”

Perante isto, fui acusado por esses “católicos fervorosos” de arianismo, o que, para além de não ser verdadeiro (ver definição de arianismo), teve a intenção de me ofender: tratou-se de um ataque ad Hominem vindo desses “católicos fervorosos”. É óbvio que respondi na mesma moeda (quem me conhece sabe que não poderia ser de outra maneira).

Onde é que, no texto, se pode vislumbrar o arianismo?!

Este incidente com os “católicos fervorosos” tem a ver com “valor” e “valores”, e com o progresso da consciência. Sendo que “o valor é o espírito em acto”, não podemos justificar o espírito, mas podemos justificar os efeitos dos actos ou os efeitos dos valores. Aqueles “católicos fervorosos” não conseguem ver o símbolo da Santíssima Trindade, e por isso são obrigados exclusivamente a ver o dogma ou, em alternativa abominável, a perder a fé.

Em vez do dogma, eu vejo o símbolo da Santíssima Trindade que tem uma explicação. Um dogma não se explica; um símbolo pode ser explicado e entendido pela razão.

No mundo contemporâneo, em que prevalece uma mentalidade marcada pelo mito cientificista, temos que explicar os símbolos, e não necessariamente impor os dogmas — porque, de outra forma, a religião cristã tende a desaparecer. Mas quando alguém pretende explicar os símbolos em vez de impor os dogmas, é insultado pelos “católicos fervorosos”.

Por exemplo, também é perfeitamente possível explicar o símbolo da transubstanciação, em vez de aceitar cegamente o dogma (um dia destes escreverei aqui acerca do símbolo — e não o dogma — da transubstanciação).

O valor depende da sensibilidade e da vontade, mas é a inteligência que orienta a sensibilidade e a vontade.

É verdade que “o valor só pode ser objecto de intuição” (Louis Lavelle, ibidem), mas também é verdade que a intuição é uma forma de inteligência. Ele há espíritos que têm a intuição do dogma mas não o conseguem transformar em símbolo, porque a sensibilidade e a vontade estão condicionados por uma inteligência relativamente deficiente: neste caso, o valor não pode ir mais além em direcção ao Absoluto, fica condicionado. Porém, uma fé religiosa que transforma sistematicamente os símbolos em dogmas é uma fé precária porque pode ser facilmente colocada em causa por uma qualquer crise existencial.

Se afastarmos o princípio da inteligência, por um lado, do valor, por outro lado, a sensibilidade e a vontade que definem o valor serão afectados negativamente, e a fé religiosa transforma-se num desejo em relação a um objecto particular e, por isso, a fé tende a querer possuir o valor transformando-o em um objecto.

Ora, a partir do momento em que o valor se transforma num objecto, deixa de ser valor, porque o valor — qualquer que seja! — aponta para o Absoluto. E quando o dogma é concebido como sendo a negação da inteligência, por um lado, e como sendo um substituto exclusivo do símbolo, por outro lado, é a própria religião que transforma o valor em objecto, e, por isso, negando a essência do próprio valor.

(segue)

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