Nietzsche foi um positivista

Normalmente as pessoas lêem Nietzsche como se lessem um romance ou um manifesto político; e quando alguém faz uma análise crítica e racional dos textos de Nietzsche, os seus apaniguados fanáticos reagem como se estivessem perante uma heresia. Portanto, este texto não foge à regra: vai certamente ser objecto de negação de factos e até de insultos.

Perante a denúncia de uma contradição ou de uma ambiguidade de Nietzsche, os seus acólitos entram sistematicamente em estado de negação: “a coisa não é bem assim como você diz” — gemem — “e você não compreendeu o que Nietzsche quis dizer…!”. Nietzsche tem sempre uma qualquer interpretação que escapa a qualquer crítica.

Nietzsche não foi um filósofo, na concepção propriamente dita do termo: antes, foi um literato.

Nietzsche — à semelhança de Karl Marx, mas por outras razões — queria romper com a filosofia e inaugurar um novo modo de pensamento (como se a lógica estivesse sujeita ao progresso). E esse novo modo de pensamento, segundo Nietzsche, estava ligado às ciências, alegadamente de tal forma que integrasse a dimensão do devir. Por outras palavras, — à semelhança do que aconteceu com Bentham — Nietzsche quis fundar uma “ciência da moral”, no sentido estritamente positivista. Nietzsche foi um positivista.

Quando eu digo que Nietzsche foi um positivista, já consigo antever os insultos nos comentários.

1/ Nietzsche critica aquilo a que ele chama de “interpretação pré-científica da realidade”; mas, por outro lado, 2/ define que a nossa (dos seres humanos) relação vital com o mundo é uma perspectiva acerca dele (do mundo) e, por isso, uma interpretação subjectiva.

Portanto, para Nietzsche, há interpretações boas e interpretações más em relação ao mundo, não obstante ele dizer não haver bem nem mal. Ou seja, para Nietzsche o bem e o mal não existem senão quando o bem é aquilo que “eu quiser que seja bom para mim”. E, finalmente, 3/ Nietzsche pretende dar uma interpretação da moral concebida como uma ciência objectiva, e determinista no sentido mais rigoroso do termo!

Ora, o leitor vulgar de Nietzsche não consegue detectar este contra-senso radical. O que me incomoda em Nietzsche é, por um lado, as suas (dele) contradições recorrentes, e por outro lado a sua ambiguidade ideológica. Mas o que mais me incomoda é a sua retórica de literato que transforma, para o leitor incauto, o contra-senso e a ambiguidade em lógica e coerência.

Por exemplo, por um lado Nietzsche critica a moral enquanto tal (seja qual for a moral, porque ele recusa o livre-arbítrio), mas, por outro lado, impõe a universalidade da sua ética vitalista — o que é uma forma de impor uma moral!. E tal como aconteceu com os utilitaristas, Nietzsche incorre no sofisma naturalista quando adequa sistematicamente a norma ao facto (quando ele anuncia a lei do mais forte, baseada no darwinismo, como um “dever viver”).

O que me põe os cabelos em pé é eu ter verificado isto, escrito isto, e depois ser insultado nos comentários alegadamente por “não ter compreendido Nietzsche” — porque o veneno de Nietzsche é exactamente a sua (dele) ambiguidade que permite que o leitor acrítico o interprete da forma que quiser.

O que mais detesto numa pessoa é a ambiguidade — seja em Nietzsche, seja no Papa.

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