O novo igualitarismo: o da “convergência”!

 

Hoje comprei o Jornal de Negócios e li o editorial de Pedro Santos Guerreiro, com o título “Os Inadaptados”. O artigo ataca implicitamente o Tribunal Constitucional sem dar explicitamente razão a Passos Coelho: é aquilo a que podemos chamar de “ataque implicitamente explícito”.

O que deixa baralhado é a novilíngua politicamente correcta neoliberal: termos como “ajustamento”, “imparidades”, “alavancagem”, etc., têm um estatuto quase esotérico. Mas o termo “convergência” é o mais cínico de todos. Escreve o Pedro Santos Guerreiro:

«Estes chumbos do [Tribunal] Constitucional agravam o clima político às portas do Orçamento [de Estado], quando os olhos estavam nos diplomas do horário da função pública para as 40 horas semanais e no corte das pensões [de reformas] do Estado (convergência entre público e privado).»

Na novilíngua neoliberal, “convergência” significa “nivelar por baixo”, eliminando a classe média.

Segundo os neoliberais, precisamos de um “ajustamento” que reduza as “imparidades” e que permita uma “alavancagem” em direcção à “convergência”… para a merda!

A sociedade “converge” quase toda para a pobreza, e à semelhança do que acontecia nos países comunistas da Europa de Leste, a sociedade fica dividida entre uma pequena elite de sibaritas que tem direito a Datchas e a outras sinecuras, por um lado, e por outro lado a massa enorme e inerme dos novos pobres, todos iguais na pobreza. É este o novo igualitarismo que Passos Coelho defende, aquilo a que eu chamei de sinificação da sociedade: um capitalismo que destrói a classe média é uma forma de fascismo.

Chegará o momento em que os neoliberais defenderão a “convergência” entre Portugal e o Burkina Fasso, em nome da “descida dos custos de trabalho por unidade produzida”.

E Pedro Santos Guerreiro continua:

«O FMI quer ainda mais flexibilização, despedimento ainda mais fácil, descida do salário mínimo, subsidio de desemprego mais curto, empregos transitórios e baratos para jovens. Não é masoquismo (1) , é o entendimento de que o desemprego só se ataca pela quantidade (mais desempregados) ou pelo preço (menos salários). E que portanto é preferível mais gente ganhar menos do que haver mais desempregados

Esta retórica parte do princípio (ilusório e falacioso) segundo o qual se os salários baixarem, o desemprego diminui automaticamente. Se isto fosse verdade, o Burkina Fasso não teria desempregados. Esta é a retórica enganosa de Passos Coelho. Ou seja, segundo os neoliberais, precisamos de um “ajustamento” que reduza as “imparidades” e que permita uma “alavancagem” em direcção à “convergência”… para a merda!

Paradoxalmente, é hoje o neoliberal Passos Coelho que defende uma nova forma “sovietizada” ou “chinezada” de igualitarismo: a esmagadora maioria do povo “converge” para a merda. Em vez de “classe média”, vamos ter uma “classe merda”.

(1) Pois não é masoquismo, não! O que poderia ser era sadismo!

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