A negação das categorias e a recusa da ciência

 

“Nasce-se e o primeiro momento de se ser feito sujeito, de começar a construção da pessoa através da sua diferenciação, é o da inscrição de uma de duas categorias: é rapaz, é rapariga. A palavra faz tudo: marca esse sujeito incontornavelmente, arranca o fazer-pessoa num “ele”, num “ela”. O discurso reveste o corpo de uma fala da diferença, mas é uma diferença de fala estrita e espectro curto: ou um ou o outro e nunca mais além. Que outra fala de fazer o corpo imaginamos nós?”

A cultura da Esquerda actual é anti-científica porque recusa as categorias, e nega o conceito de juízo universal.

Ou seja, o discurso da actual cultura de Esquerda é ilógico (é absurdo); mas o que é surpreendente é que se queira atribuir lógica a um discurso ilógico, como é o caso da citação supra respigada aqui.

A cultura actual de Esquerda defende a ideia segundo a qual existe uma lógica do absurdo, ou existe lógica no absurdo: por exemplo, se dissermos que 1+1=25, a proposição não é (segundo a Esquerda actual) absurda: pelo contrário, pode existir uma lógica na proposição que pode ser subjectiva. Chamemos a isto um “realismo subjectivista”: o próprio conceito de “realismo subjectivista” exprime bem o absurdo de uma coisa simultaneamente real e hipoteticamente subjectiva.

Segundo a Esquerda actual, a lógica é subjectiva. Ora isto significa a negação total da ciência.

Reparemos um pouco mais no texto, do ponto de vista da metafísica. Algumas palavras-chave: sujeito, construção, pessoa, diferenciação. Desde logo, e segundo o texto, a diferenciação faz-se depois do nascimento, como se a criança não tivesse um ADN único e irrepetível. A “construção da pessoa”, segundo o texto, não tem nada a ver com as características genéticas e epigenéticas do nascituro, por um lado, e com o tipo de meio-ambiente onde a criança vai crescer, por outro lado.

A “construção da pessoa” é concebida (no texto) como uma hipostasia (como se não existisse uma causa para a existência dessa pessoa), por um lado, e por outro lado, o conceito de diferenciação é aplicado no sentido da negação da própria definição de diferenciação — porque a diferenciação é a transformação de elementos semelhantes em elementos diferentes. Segundo o texto, os nascituros são semelhantes e tornam-se diferentes — quando, em rigor, o que varia ao longo da vida é o tipo de diferença, porque o grau de semelhança e de diferença (aquilo que é comum em relação aos outros) mantêm-se invariável.

O determinismo da cultura actual de Esquerda não é um determinismo científico, de causa-efeito; nem é um determinismo metafísico de tipo estóico (o “Destino”, de Fernando Pessoa) ; é um “determinismo aleatório” — o próprio conceito é contraditório, e por isso, absurdo —, porque se trata de um determinismo subjectivista, de tipo “fado”:

“As coisas são assim, por quê? Porque eu quero que sejam assim!”

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Politicamente correcto com as etiquetas , . ligação permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s