O problema é o de saber o que significam “queimar as pestanas” e “meritocracia”

 

Deparei-me com uma saudável polémica acerca da docência (e da decência), que se traduz na seguinte citação de um comentador do blogue Rerum Natura:

“Há muita incompetência que “queimou as pestanas” durante toda a vida – e “conseguiu” manter-se nessa atávica incompetência. Assim como há quem, sendo detentor de natural vocação para a prática da docência, não tenha sentido a necessidade de queimar as ditas para um exercício honesto e profícuo da sua actividade. Ou não? Enquanto se generalizarem concepções onde o subjectividade domine, o resultado apontará sempre em nosso benefício – mas a concupiscência também”.

1/ “Queimar as pestanas” pode ser considerado (erradamente) ou um meio, ou (acertadamente) um fim em si mesmo. 2/ “Queimar as pestanas”, mesmo que seja um fim em si mesmo, não providencia a inclinação natural (os estóicos tinham razão) para o exercício da docência. Tive professores que sabiam muito mas que não se sabiam explicar. 3/ Não existe uma relação directa, evidente e espontânea entre o “queimar das pestanas”, por um lado, e mérito profissional, por outro lado.

Quando se fala em “queimar as pestanas”, referimo-nos a quem concebe a dedicação ao estudo como um fim em si mesmo. Alguém que concebe o estudo como um meio — por exemplo — para atingir um estatuto social consentâneo com a concupiscência, e embora se esforce, não “queima as pestanas”. “Queimar as pestanas” não é só perseverança e obstinação: é sobretudo paixão. Quem “queima as pestanas” encara o estudo como um artista encara a criação da sua obra-de-arte.

“Queimar as pestanas” não forma técnicos: em vez disso, forma cientistas. E, de facto, um cientista pode não ser um bom professor — pode não ter, por exemplo, as características de comunicação necessárias à docência. O ideal seria que o bom docente fosse também um cientista, mas o sábio é raro como a Fénix. Portanto, em juízo universal, devemos dizer que o bom docente é um bom técnico.

Se for verdade que, em termos gerais, um bom docente é um bom técnico (no sentido grego de técnica ou technè, aquele que copia mas que não cria), ele precisa apenas de saber aquilo que é estritamente necessário para ser um técnico. Ninguém pede a um electricista que seja um físico nuclear, e nem um físico nuclear substitui o electricista. E aqui é que está o problema actual do ensino (mesmo, e sobretudo, a nível universitário): os professores são cada vez mais técnicos, e não cientistas. A meritocracia aplicada ao ensino não depende já do saber entendido em si mesmo, mas antes da forma como um qualquer saber — por incipiente que seja — é comunicado. Infelizmente é assim.

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