Ser cristão porque se é um céptico radical

 

Eu tive uma educação católica e tive uma experiência pessoal “perto-da-morte“, e por isso seria muito difícil eu ter uma concepção materialista da vida e do mundo. Mas o que contribuiu de forma significativa para fazer de mim um cristão foi (e é) o meu cepticismo radical; e, dizendo isto, já vejo alguns “católicos fervorosos” pensar: “Esta criatura ensandeceu! ¿Como é que um céptico radical pode ser cristão?!”.


A realidade da Totalidade é a condição de uma visão realista do mundo.

Em 1982, o físico francês Alain Aspect demonstrou que duas partículas elementares não só comunicam entre si, mas também “viajam” no universo a uma velocidade superior à da luz. Em 1992, um físico alemão e ilustre desconhecido, chamado Günter Nimtz, demonstrou que as partículas elementares podem deslocar-se (pelo menos) a uma velocidade quatro vezes superior à da luz. O que isto significa é que as estórias que os intelectuais contavam — na minha meninice e na minha juventude, na década de 1960 e de 1970 — acerca da teoria da relatividade de Einstein, não passam hoje de estórias da Carochinha. Em bom rigor, Einstein vale hoje tanto como Newton valia na primeira metade do século XX.

Mas o “desastre” não fica por aqui. O que é também importante na experiência de Alain Aspect — e de Nimtz —, é que ficou demonstrado que as leis válidas para aspectos físicos parciais foram anuladas em uma determinada situação. Nós já sabíamos que, nos buracos negros e na singularidade, as leis da física clássica eram anuladas; mas a experiência de Aspect não só alargou o espectro da anulabilidade das leis da física, como tornou essa anulabilidade em um facto vulgar e normal. Ou seja, quaisquer dois vulgares fotões anulam as leis da física clássica!

Em função da experiência de Alain Aspect de comunicação “espontânea” entre duas partículas elementares, e da consequente vulgarização do fenómeno da singularidade no mundo físico, a teoria de potencial quântico de David Bohm ganhou (ainda mais!) consistência. Hoje, deparamo-nos com a seguinte realidade:

Na física clássica, as propriedades e o comportamento das partes determinam o comportamento da Totalidade. Na física quântica, a Totalidade determina o comportamento das partes.

Ora, com a vulgarização universal da singularidade, as leis da física clássica “valem o que valem”: são leis que apenas se justificam para criar uma estabilidade no universo macroscópico que permita, por exemplo, o aparecimento da vida. Do ponto de vista filosófico, as leis da física clássica são epifenómenos, são efeitos de uma realidade causal mais profunda que passa pelo mundo dos quanta e que se escoram na metafísica.

De acordo com as experiências de Alain Aspect, as partículas elementares que alguma vez se encontraram em uma acção recíproca, permanecem partes de um único sistema, sistema esse que reage na sua totalidade às acções reciprocas seguintes. Ou seja, tudo o que podemos ver e tocar, é constituído pela acumulação de partículas elementares que se encontraram alguma vez, em uma acção recíproca, com outras partículas elementares e desde (ou até ao) o Big Bang. O corpo físico dos seres humanos e os objectos fazem parte de um único “sistema integrado”, de uma “rede universal” de partículas elementares.

A esta concepção do universo, D’Espagnat e David Bohm chamaram de Holismo: tudo está ligado a tudo, por um lado, e por outro lado, só é possível explicar o fenómeno das partículas elementares que comunicam entre si a uma velocidade superior à da luz mediante uma visão holística do mundo.

O Holismo significa a visão da Totalidade de um sistema: as partes estão em contacto com a Totalidade. Se tudo o que no Big Bang esteve numa acção recíproca permanece ligado, todas as partículas elementares, em todas as estrelas, e em todas as galáxias, “sabem” da existência de todas as outras partículas elementares.

O físico David Bohm escreveu o seguinte:

“O universo pode assumir a organização dos seus componentes (…) porque a Totalidade, por princípio, é constituída de modo que organiza as partes (…) tudo está ligado entre si através de conjunções invisíveis”.

O que isto também significa é que não podemos isolar uma parte, por um lado, da realidade, por outro lado — como a ciência positivista faz. Não podemos extrair objectos da Realidade, porque essa extracção implica sempre um erro, porque, na realidade, tudo está ligado com tudo. Isto não significa que a ciência não seja uma actividade boa: significa apenas que a ciência é útil ao ser humano como instrumento de sobrevivência no mundo macroscópico em que vivemos.

Mas também não poderemos saber — nunca! — como a Totalidade organiza esses seus aspectos parciais, pela simples razão de que é absolutamente impossível forçar a totalidade do universo a entrar dentro de um laboratório, para se fazer com ele (o universo) uma experiência. Ou seja: como dizia Karl Popper com verdade, a análise da realidade não passa de um conjunto conjecturas, e será sempre um conjunto de conjecturas. Tudo são hipóteses.


A pergunta que devemos fazer é a seguinte: ¿Como devemos compreender a nossa vida e a nossa realidade? ¿O que nos resta, se tudo é efémero e nada é seguro?

Longe vão os belos tempos felizes da Idade Média, em que o pensamento e a fé eram coerentes entre si, e em que uma pergunta inteligente dava azo a uma resposta inteligente. Hoje — e como nunca aconteceu no passado da Humanidade! —, sabemos menos como devemos elaborar um conceito do nosso mundo. Tudo são hipóteses e conjecturas.

As concepções científicas acerca da Natureza são hipóteses da nossa investigação, e a tal ponto que até o materialista Nietzsche chegou mesmo a duvidar da sua (dele) existência! Os cientistas da neurologia dizem que o “Eu” humano é apenas uma hipótese das células nervosas. Hipóteses e conjecturas: nada é verdadeiramente fiável, embora, como escreveu Karl Popper, “é possível admitir o mundo como uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”. Em rigor, não pode ser encontrado uma prova concludente para uma evidência tão simples como a existência de um mundo exterior a nós próprios: Kant chamou a isto o “escândalo da razão”.

Mas se eu me entendo a mim próprio e ao mundo apenas e só como uma “hipótese de trabalho”, ¿onde fica a realidade?!

Antes de mais, temos que saber o que é uma hipótese. O conceito de hipótese só faz sentido se existir uma realidade que comprove a existência da hipótese — sendo a hipótese correcta, ou falsa. E se nada no mundo parcial (o mundo das partes, dos objectos) possui uma realidade fiável, então, pelo menos a Totalidade, da qual a minha vida e o mundo fazem parte, tem que ser real. A realidade da Totalidade garante a realidade das partes e do mundo dos objectos. A realidade que nos rodeia só pode ser deduzida da realidade da Totalidade.
A realidade da Totalidade é a condição de uma visão realista do mundo.

O Cristianismo expressou, embora por outras palavras e indo mais além da imanência, este conceito de Totalidade: a vida e o mundo só tem um ser e um sentido razoável a partir de Deus. O ser humano, o ser da realidade das hipóteses, nada mais é do que uma realidade deduzida a partir de Deus. Foi assim que a realidade entrou racionalmente na minha vida a partir de Deus: as “hipóteses de trabalho” da ciência são agora racionalmente seguras e firmes.

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