João César das Neves, falacioso e completamente desfasado da realidade

 

João César das Neves é visto, pelos “católicos fervorosos”, como um paradigma ideológico. Mas a forma como ele vê a realidade portuguesa é utilitarista (obedece a uma ética utilitarista). Por isso, é tempo de desmascarar o “catolicismo” de João César das Neves.

O discurso de João César das Neves é cínico:

“a quase totalidade dos que elaboram sobre pobreza não são pobres”.

João César das Neves parte do princípio de que (ele) conhece a experiência pessoal de toda a gente que fala da pobreza, e por isso, ele pode afirmar com certeza que, sendo que “a quase totalidade dos que elaboram sobre pobreza não são pobres”, segue-se que essa gente que “elabora sobre a pobreza” não conhece a realidade da pobreza. A falácia lógica é non sequitur.

Por outro lado, João César das Neves fala da pobreza de uma forma abstracta, assim como Peter Singer fala da vida humana de forma abstracta. ¿Quanto vale uma vida humana? — podemos perguntar a Peter Singer. E ¿quanto vale um pobre? — podemos perguntar a João César das Neves. É neste sentido que o “catolicismo” de João César das Neves é utilitarista.

Por outro lado, João César das Neves infere que “a finalidade imediata da retórica não é aliviar os pobres mas atacar o neoliberalismo, rejeitar a Troika, derrubar o Governo, combater a reforma do Estado, o Orçamento ou outro decreto particular”. Ou seja, João César das Neves tenta mudar o foco do problema, o que configura uma outra falácia lógica (Ignoratio Elenchi). Ou seja, o facto de, eventualmente, haver gente que se aproveita da realidade da pobreza para “atacar o neoliberalismo, rejeitar a Troika, derrubar o Governo, combater a reforma do Estado, o Orçamento ou outro decreto particular”, não significa que o problema da pobreza deixe de existir só porque essa gente também existe. Ao mesmo tempo que critica uma determinada visão política, João César das Neves cai no maniqueísmo político (falácia da falsa dicotomia) e na falácia lógica Ignoratio Elenchi.

“Este facto é muito desconcertante, por duas razões. Primeiro porque as medidas do Governo têm trazido sempre ressalvas nos rendimentos mais baixos. Como explicar então que, apesar disso, tantos protestem em nome deles? Mas a suprema estranheza advém de os defensores dos pobres se virarem para o Estado, que todos sabem ser há séculos um inimigo dos miseráveis.

Reis, imperadores e governantes nunca se interessaram pelos desgraçados, quando não os perseguiam.”

Aqui, João César das Neves elabora em outra falácia lógica: a falácia de Parménides (“o tempo parou no tempo”), que consiste, por exemplo, em comparar a situação das relações sociais e de Poder no século I, com as relações sociais e de Poder no século XXI. Este tipo de comparações são falaciosas, ou então revelam um burro em todo o seu esplendor.

Além disso, não é verdade que “as medidas do Governo têm trazido sempre ressalvas nos rendimentos mais baixos”: 3% de corte num salário de 600 Euros não é equivalente a 10% de corte num salário de 2.000 Euros. O que é facto indesmentível é que o governo de Passos Coelho cortou nos salários mais baixos; e invocar a proporcionalidade percentual dos cortes pode ser defensável, mas não é um argumento a favor da justiça nos cortes.

A caridade católica é louvável e deve ser incentivada, mas não pode substituir o Estado. João César das Neves vive desfasado da realidade. E para defender a ideia da caridade em detrimento do apoio social do Estado, João César das Neves escreve o seguinte:

«Foi em 1970 que o prémio Nobel George Stigler (1911-1991) formulou, num dos seus textos clássicos, a lei que atribuiu ao colega da Universidade de Chicago Aaron Director (1901-2004): “Director”s Law of Public Income Redistribution” (Journal of Law and Economics, Vol. 13, n.º 1, p. 1-10). Esse teorema afirma que “as despesas públicas são feitas para o benefício primordial da classe média, e financiadas com impostos suportados em parte considerável pelos pobres e pelos ricos” (op. cit. p. 1). A sua base lógica advém naturalmente de, representando de longe a maior parte da sociedade, as classes médias atraírem naturalmente as graças dos eleitos.

Hoje Portugal, devido às imposições da troika, vive um corolário desta lei em condições inversas. Como nas décadas de endividamento os benefícios seguiram esse princípio, dirigindo-se para os extractos intermédios, agora é aí que cai o corte nas despesas. Aliás, a verdadeira razão da raiva extrema contra o Governo vem da pressão sobre a classe média, uma violação forçada da “lei de Director”.

Assim se explicam as confusões dos discursos sobre pobreza. A maioria dos que falam em nome dos desprovidos estão realmente a defender as classes acima, mesmo se nos extractos mais baixos. As medidas contestadas não tocam os verdadeiros pobres, geralmente alheios aos políticos, até de esquerda. As greves dos serviços públicos não se destinam a proteger os desvalidos, que aliás são os que mais sofrem pela falta de transporte e outros sistemas. Em Portugal não há manifestações de mendigos, miseráveis e necessitados. São antes os remediados, que se consideram carentes, que fazem as exigências em nome dos silenciosos.

Boa parte da retórica de contestação baseia-se neste mal-entendido, em que burgueses passam por infelizes. Entretanto, os verdadeiros desgraçados, mudos como sempre, ainda têm de ouvir os muitos aproveitamentos do seu nome.»

1/ em primeiro lugar, sem um classe média suficiente e estável (já não digo “forte”), não é possível uma democracia representativa estável. Só um burro não vê isto. Portanto, sem classe média estável não há eleições em liberdade. João César das Neves cai aqui numa contradição: o neoliberalismo que ele defende depende, como “o pão para a boca”, de eleições livres — ou seja, depende da existência de uma classe média. O capitalismo que o João César das Neves defende, se não existir em democracia mas antes existir em uma ditadura, é um fascismo. Não quero dizer com isto que o João César das Neves é fascista: quero apenas dizer que ele é burro.

2/ João César das Neves confunde (é burro como uma parede!) uma política negativa de endividamento, por um lado, com a existência de uma classe média, por outro lado. Não se segue que a classe média seja apenas e só, e em toda a parte, o resultado de uma política de endividamento! O problema é que o Euro não nos tem permitido (isto é um facto!) ter uma classe média estável (que dependa também da economia privada) sem uma política de endividamento do Estado. Em vez de ir às causas do problema, o João César das Neves fica-se pelos efeitos, o que revela burrice ou má-fé.

O discurso de João César das Neves é exactamente o mesmo de Passos Coelho: classe média contra pobres, pobres contra a classe média, jovens contra velhos, funcionários do privado contra funcionários públicos, ou seja, é um discurso irracional. A pobreza, considerada em si mesma, é relegada por João César das Neves para um segundo plano para que ele possa atacar aqueles que, eventualmente, se servem da pobreza para, alegadamente, defenderem os seus próprios interesses egoístas. João César das Neves foca-se nas putativas intenções de uma determinada visão política; e a pobreza, entendida em si mesma, é vista apenas e só como um instrumento político e arma de arremesso político utilizado por determinados grupos sociais que ele, João César das Neves, diaboliza.

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