De Kierkegaard a José Régio

 

Já Hannah Arendt afirmou que a filosofia de Kierkegaard foi o início da crise moderna do Cristianismo. E tinha razão. Por muito que não gostemos (e eu não gosto dessa ideia), Hannah Arendt tinha razão.

Hoje, normalmente, as pessoas fogem à verdade; por exemplo, só lêem aquilo que coincide com os seus gostos pessoais e com a sua mundividência, por forma a evitar qualquer dissonância cognitiva; só se juntam em grupos (nas redes sociais ou na vida real) onde todos pensam mais ou menos da mesma maneira; e qualquer pensamento divergente é normalmente rejeitado, com medo de que contenha algum pedaço de verdade. A verdade já não liberta: antes, apavora!

A filosofia de Kierkegaard paralisa a acção: “¿devo fazer isto ou aquilo?” E essa paralisia surge da agonia da dúvida da fé. Quem duvida não sabe o que fazer, não sabe bem se há-de ir “por aqui” ou “por ali”. E poemas como o “Cântico Negro” de José Régio são a expressão dessa ambivalência da dúvida que paralisa a acção do cristão pós-moderno:

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Existe, entre o Cântico Negro de José Régio e a paralisia da acção de Kierkegaard, um continuum ideológico, como se a revolta da autonomia radical de Régio fosse o corolário de um processo de acalentamento da dúvida que se iniciou com Kierkegaard: este questionou-se: “¿vou por aqui ou por ali?”; e Régio responde: “Nunca vou por ali!”

Alguém escreveu aqui o seguinte:

«Tudo se complica muito mais porque as escolhas não são sempre feitas entre o bem e o mal… boa parte das vezes a vida exige-nos que escolhamos um de entre dois bens ou um de entre dois males… o erro e o arrependimento são fáceis e quase  garantidos… a felicidade parece impossível… ao homem nunca cabe o lugar de Deus, mas, ainda assim, sem saber distinguir essências de aparências, é possível escolher (o) bem!

(…)

Quem se aproxima de um destino, afasta-se da sua origem… troca o valor do que elege pelo valor do que resigna. Mas, o que move alguém que se encontra no caminho entre A e B? Será a vontade de B? ou o medo de A? Se o amor é um excelente motor das nossas acções, o medo também o é… o que resulta numa tremenda confusão: há quem finja amar com medo da solidão e quem viva na verdadeira solidão com medo do amor… há quem tema tudo… e quem ame sem medo de nada.»

Com um pouco de boa vontade, este texto quase que poderia ser atribuído a Kierkegaard. Com ele, a fé deixou de ser uma certeza, e como a verdade passou a ser património da ciência, a religião deixou de ter uma bússola objectiva e exterior ao Homem. A paralisia da acção relativiza as opções: podemos fazer “isto” ou “aquilo”, mas não conseguindo distinguir as “essências das aparências”, ainda assim será possível escolher o bem que passou a pertencer exclusivamente ao foro da subjectividade humana.

O cardeal Bergoglio não diria melhor!

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