O tradicionalismo é hoje uma “sopa de pedra” (2)

 

António Sardinha assumiu-se como republicano no tempo da monarquia, e depois da implantação da república em 1910, assumiu-se como monárquico. Toda a gente pode errar, mas convenhamos que o erro não é propriamente uma polarização de posições. Mas os ditos “tradicionalistas” não vêem isto e continuam ainda hoje tão românticos quanto o Sardinha foi. Ora, o tradicionalismo é incompatível com o romantismo; aliás, o tradicionalismo é a antítese do romantismo. Se houve uma corrente filosófica (e artística) que destruiu o tradicionalismo, foi o romantismo.

Por definição, um romântico não pode ser tradicionalista. Para os românticos, qualquer adereço serve para enfeitar o seu romantismo: pode servir a monarquia e/ou o tradicionalismo, o marxismo, o nazismo, etc.. Os românticos adoram ver as feras em luta de morte: o pior é quando as grades da jaula se desfazem e as feras saltam cá para fora.

sopa_pedraA tradição não é uma ideologia política. Só os ignaros reduzem a tradição a um determinado sistema político, não se dando conta, eles próprios, que assim contribuem activamente para a erosão da tradição. A tradição é um conjunto de valores que pode não existir em uma situação em que o “rei governa mas não administra”, mas que pode existir em outra situação em “o rei reina mas não governa”. São os valores da tradição que são intemporais, e não a tradição entendida isoladamente e em si mesma. Quem separa a tradição, dos valores, adopta uma qualquer “tradição” adequada e limitada a cada espírito do tempo.

O Rei é um símbolo que tem um representado: a nação; e, por isso, a representação do Rei não pode ser arbitrária como pode ser um signo ou um sinal de trânsito — a não ser que destruam o povo que é a sua representação. E também por isso o Rei não pode ser reduzido a um mero instrumento de governação. Os símbolos são premissas, e não utensílios. O facto de o Rei governar, ou não, é um detalhe, um pormenor.

Quem reduz o símbolo, que é o Rei, à comezinha governança do Deve e do Haver das finanças públicas, compara-o com um qualquer ministro. Quando os tradicionalistas já perderam a noção do “símbolo real”, e a tradição transformou-se na expressão de um ego romântico, então a defesa da monarquia passou a ser uma “sopa de pedra” que alberga os mais diversos condimentos ideológicos que de “tradicionalistas” têm nada.

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