A física quântica demonstra que “há vida após a morte”?!!!

 

Temos dois textos que tratam do mesmo assunto: um em inglês e outro em espanhol (podem escolher o idioma que quiserem).

«”Creemos que la vida es solo la actividad del carbono y una mezcla de moléculas; vivimos un tiempo y después nos pudrimos bajo tierra”, escribió el doctor en medicina Robert Lanza, citado por el diario británico ‘Daily Mail’.

Este profesor de la Escuela de Medicina de la Universidad Wake Forest de Carolina del Norte argumentó que los humanos creemos en la muerte porque “nos han enseñado a creer que morimos”; es decir, nuestra conciencia asocia la vida con el cuerpo, y sabemos que el cuerpo muere.»

O que esse professor está a falar é de filosofia quântica, e não de física quântica. Trata-se de uma teoria, mas de uma teoria metafísica (filosofia) e não de uma teoria corroborada (teoria científica). A teoria filosófica possui uma coerência interna e segue a Lógica, mas necessita de demonstração para se tornar em uma teoria científica que, por sua vez, deve ser verificada (verificação).

 

«Para dar un ejemplo, Lanza se centra en cómo percibimos el mundo que nos rodea. Una persona ve el cielo azul y le dicen que ese color es el ‘azul’, “pero se pueden cambiar las células de su cerebro para que vea el cielo de color verde o rojo”. »

É verdade que, por exemplo, um daltónico vê as cores de uma forma diferente da normal, o que significa que a interpretação que o “software” do cérebro do daltónico faz da percepção da visão é diferente da normal. Mas a normalidade existe por uma razão objectiva que se fundamenta, em última análise, na própria organização celular da vida, por um lado, e a normalidade é a regra que confirma a excepção, por outro lado (juízo universal).

«Nuestra conciencia da sentido al mundo y puede ser alterada para cambiar nuestra interpretación. Desde el punto de vista de la biocéntrica, el espacio y el tiempo no se comportan de manera tan rígida ni tan rápida como nos presenta nuestra conciencia.

Si aceptamos la teoría de que el espacio y el tiempo simplemente son ‘herramientas de nuestra mente’, entonces la muerte y la idea de la inmortalidad existen en un mundo sin límites espaciales ni lineales. »

A nossa interpretação do mundo não se deve distanciar da realidade macroscópica — ou seja, do universo físico — sem que corramos o risco de delírio interpretativo. A física quântica não provou nem demonstrou que “há vida após a morte” — coisa nenhuma!

Esta afirmação, atribuída à física quântica, é absurda! Mesmo do ponto de vista da filosofia quântica, é difícil — se não mesmo impossível — alguém defender uma teoria segundo a qual “há vida após a morte”. Sabemos que há vida após a morte através de uma experiência subjectiva que, se for partilhada, pode tornar-se intersubjectiva e, por isso, corroborada por outras pessoas — mas essa experiência intersubjectiva nunca é passível de passar pela contrastaria da verificação através da estatística, assim como a maioria dos fenómenos quânticos “surgem quando surgem” e são de impossível previsão.

Os fenómenos quânticos não decorrem num determinado lugar e num determinado momento, possuindo apenas a tendência para surgir: são apenas meras possibilidades: são eles próprios (os fenómenos) que decidem, por assim dizer, se surgem ou não. Não existe uma causa responsável por esse surgimento: “isso acontece simplesmente sem uma razão especial, mais provavelmente agora do que num outro momento.1

«Los físicos teóricos creen que hay una cantidad infinita de universos en los que diversas variaciones de personas y situaciones existen y ocurren simultáneamente.

Lanza afirma que todo lo que puede suceder sucede en algún momento en todos estos ‘multiversos’ (los múltiples universos posibles), lo que significa que la muerte no puede existir “en un sentido real”.

Según Lanza, que participó en los primeros experimentos de clonación, cuando morimos nuestra vida se convierte en una “flor perenne que vuelve a florecer en el multiverso”.

Para corroborar su teoría, el científico citó un experimento conocido como ‘experimento de la doble rendija’, que demuestra que la percepción humana participa en el comportamiento de la materia y la energía.»

A teoria do Multiverso não é uma uma teoria científica propriamente dita. Mas mesmo que a consideremos uma teoria científica, ela entra em contradição com a segunda lei da termodinâmica segundo a qual, e para um ciclo fechado e teoreticamente reversível, não pode haver passagem directa de calor de uma fonte mais quente para outra mais fria, porque resulta num desperdício inevitável de calor à escala infinitesimal. Em um sistema isolado, a entropia aumenta com a passagem do tempo; e a teoria de cordas ou a teoria do Multiverso não resolvem o problema do universo, porque estaríamos a falar de universos paralelos com uma idêntica ou semelhante formação e composição física: 20 universos paralelos [ou 1000 universos paralelos; ou 10^80 universos paralelos] não deixariam de ser 20 universos físicos que formariam, no seu conjunto, um sistema isolado.

A solução para o problema da segunda lei da termodinâmica é a “Transcendência”, que a física quântica não pode demonstrar. O físico quântico francês Roland Omnès, no seu livro “Filosofia Quântica”, aflora o conceito de “transcendência” chamando-o de “abismo”.

A ideia segundo a qual a consciência humana interfere na complementaridade onda/partícula — através do que se chama, em quântica, de “redução do feixe de ondas” — é apenas uma teoria de Eugene Wigner, de D’Espagnat e de outros físicos. Desde logo, não existe uma definição de “consciência” que se possa aplicar à ciência: o conceito científico de “consciência” é sofrível e insuficiente. A definição filosófica (metafísica) de “consciência” é a seguinte: “a consciência é uma experiência originária, comprovável a nível intersubjectivo, que antecede a experiência objectiva”. Como é bom de ver, esta definição não pode ser adoptada pela ciência.

Em suma, a quântica veio colocar em causa o determinismo da física clássica, por um lado, e por outro lado, abre a hipótese de uma inferência indutiva em relação à realidade da transcendência. Mas não demonstra que “há vida depois da morte”.

Notas
1. John Gribbin

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