O silêncio popular é de anuência, mas a anuência não é em relação ao governo

 

O que mais me assusta neste governo é a arrogância e a demonstração de uma certa pesporrência em relação ao povo.

Quando membros do governo e dos partidos políticos da coligação vêm a terreiro dizer que os polícias — que se manifestavam em frente do parlamento — fizeram mal em avançar para além das barreiras de segurança, o que eles dizem é o óbvio; e por isso, é patético que venham dizer o óbvio. Mas a razão por que vêm dizer o óbvio é porque sabem que, por estes tempos, o óbvio não é tanto como parece ser, e são os próprios membros do governo que dão o exemplo transformando o que seria óbvio em absurdo.

policias arA verdade é que grande parte do povo, se não mesmo a maioria, não discorda (pelo menos de forma veemente) daquele avanço dos polícias à paisana sobre as barreiras da assembleia da república. Em vez de criticar aqueles polícias, grande parte do povo prefere o silêncio que anui. E portanto, de nada vale ao Paulo Portas vir criticar Mário Soares acusando-o de “legitimar a violência”, como se a opinião pública não fosse maioritariamente composta por um conjunto de indivíduos idóneos que não depende da opinião dos membros do governo. Cada vez mais, a opinião pública está divorciada da opinião do governo.

O governo está convencido de que pode transformar o silêncio do povo em uma forma de expressão de um síndroma de Estocolmo em que o povo é a vítima e o governo o agressor. Que o governo não se engane! O estado de coisas pode mudar tão repentinamente como muda um pequeno incêndio em um dia ventoso de Verão: basta, por exemplo, que o discurso da Esquerda se desloque do actual eixo ideológico marxista para se concentrar exclusivamente em um discurso pragmático que demonstre aos portugueses que “perdidos por um, perdidos por mil”.

De forma inconsciente, o povo sabe que, na política, as acções são passíveis de retroactividade — podem conduzir a situações que resultam em uma retroacção da realidade social e política. Mas se a retroactividade existe em política, a acção deste governo também incorre no mesmo risco de retroacção, e isso pode acontecer quando se chega a um ponto tal em que o povo aceita (como a colmeia “sente”, ou seja, de forma inconsciente) correr o risco de uma qualquer retroacção só para que o estado de coisas actual não se mantenha.

O que mais me assusta neste governo é a arrogância e a demonstração de uma certa pesporrência em relação ao povo; e por isso é que a acção de Mário Soares e de José Pacheco Pereira, entre outros, serve de válvula de escape: em vez de Paulo Portas criticar Mário Soares, deveria estar calado, porque o velho socialista está-lhe a prestar um serviço.

 

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