Os «Ches Guevaras» da direita revolucionária

 

che guevara da direita web 400A autoridade que provêm da tradição escapa a qualquer crítica racional. Por exemplo, a autoridade dos pais sobre os filhos só pode ser colocada em causa pela utopia do Estado plenipotenciário da República de Platão; ou a autoridade do patrão esquiva-se a qualquer crítica social; ou a autoridade formal do professor em uma instituição de ensino não pode ser colocada em causa sem se esboroar o sistema de ensino. A este tipo de autoridade chamamos de autoridade de direito.

Mas a autoridade das relações sociais do dia-a-dia e fora da hierarquia de uma qualquer instituição não é uma autoridade de direito: antes, é uma autoridade de facto, escorada na argumentação racional: fora de uma universidade, um professor pode ser um burro carregado de preconceitos negativos. Por isso, é com surpresa que alguém cria uma falácia do espantalho quando me acusa de lhe querer impôr a minha — alegada — autoridade de direito.

Não há nenhum santo de nomeada da Igreja Católica e da Idade Média que tenha defendido clara e inequivocamente a pena-de-morte.

Bernardo de Claraval, que era um homem duro e ascético, escreveu um texto com o título “Sobre a Dispensa”, em que diz que, por vezes, Deus “dispensa” o Homem de cumprir certos mandamentos: ordenou o assassínio (Abraão e Isaac), o roubo (o ouro dos Egípcios) e o adultério (Oseias). Mas, segundo S. Bernardo, a “dispensa” era ditada por Deus e não pelos homens, por um lado, e era uma excepção ordenada por Deus (não era uma regra, ou uma normalidade), por outro lado. Mas, para S. Tomás de Aquino, Deus não pode dispensar o Homem da lei natural que proíbe estas faltas, incluindo o assassínio, porque os princípios da razão prática são os mesmos sempre e em toda a parte [Suma Teológica, I-II, 94-4]: apenas as conclusões que se tiram dos princípios da razão prática mudam ao entrarem na contingência do concreto porque quanto mais se desce no particular, mais se encontra falhas (ou seja, a lei natural, quanto muito, pode ser adaptada a casos particulares, mas essa adaptação tem sempre origem divina, e não cabe aos homens substituir Deus).

Portanto, nenhum grande santo da Igreja Católica ou um grande doutor da Igreja defendeu inequivocamente a pena-de-morte. Quando a lei natural era quebrada (a tal “dispensa”), era por ordem e inspiração de Deus, e não pela lei dos homens. Não é possível nem legítimo a um católico defender a pena-de-morte fundamentando-se na tradição teológica da Igreja Católica.

Um assassino aos 20 anos pode não ser já um assassino aos 70 anos. Defender a pena-de-morte é uma barbaridade anti-católica. Deus não reconhece senão indivíduos, e cada indivíduo presta as suas contas directamente com Deus. A prisão do assassino é essencialmente um acto preventivo e profiláctico antes de ser punitivo: quem vai ajustar as contas definitivas com um assassino, é Deus.

Podemos ser salvos através do arrependimento, e um assassino não é excepção. Um assassino também é um ser humano, também pode usufruir da Graça Divina; no tarde da sua vida pode olhar para um acto tresloucado da sua juventude com extrema amargura e arrependimento. Não compete aos homens ocupar o lugar de Deus e validar a pena-de-morte.

Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a pena-de-morte, e os portugueses deveriam estar orgulhosos disso. Mas o que me surpreende são os fedelhos “Ches Guevaras” da direita revolucionária que se dizem “católicos fervorosos” e que pretendem substituir-se a Deus.

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