Física de Plasma: a teoria da não-teoria

Um leitor chamou-me à  atenção para este vídeo acerca da chamada “Física de Plasma”. Vamos tentar simplificar conceitos para que o leitor entenda o que está em causa.

Em primeiro lugar, vamos citar uma quadra do nosso poeta Aleixo:

“P’rá mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à  mistura
qualquer coisa de verdade.”

A teoria da Física de Plasma, segundo o vídeo citado, tem qualquer coisa de verdade.

Em segundo lugar, vamos saber o que significa uma “teoria”.

Uma teoria é uma síntese que engloba leis naturais (por exemplo, a teoria da gravitação engloba a lei da queda dos corpos ) destinada a considerar os dados da experiência.

Portanto, uma teoria sem dados da experiência, ou é um delírio, ou é metafísica que, por inerência  faz parte da filosofia. Mas a metafísica não é ciência. O que pode acontecer é que a ciência esbarre contra um qualquer limite conceptual que não permita construir uma “teoria corroborada”.

¿O que é uma “teoria corroborada”? Uma teoria corroborada é uma teoria que resistiu às tentativas mais sérias e severas de falsificabilidade através da experimentação. ¿O que é “experimentação”? Em ciência, experimentação é o conjunto dos meios e procedimentos de controlo destinados a verificar uma hipótese ou uma teoria (não confundir “experimentação” com “experiência”: a experiência pode não ser científica). ¿O que significa “verificar”? Verificar é o acto de “verificação”, sendo que verificação é o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

Depois destas “definições reais” — as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência — que são necessárias embora não devamos exagerar na sua utilização, podemos partir pára a teoria da Física de Plasma.


Vamos colocar por itens e a itálico e negrito o que é defendido pelo vídeo da teoria da Física de Plasma, e depois comentar.

1/ o primeiro princípio da Física é o de que não se pode criar matéria a partir do Nada.

Antes de mais, temos que saber o significa “nada”. Mas saber isso não é assunto da ciência: em vez disso, é assunto da metafísica (filosofia). Por exemplo, o filósofo Leibniz perguntou: “¿Por que há algo, em vez de nada?”

Portanto, a teoria da Física de Plasma critica o “misticismo da matemática e da física do século XX”, mas não deixa de entrar pela metafísica adentro. Ou seja, trata-se de um misticismo que critica outro misticismo — uma teoria da não-teoria, como explicarei mais adiante.

Vamos supôr (vamos partir do postulado) — para facilitar a vida à  Física de Plasma — que “nada” significa “ausência de matéria”.

¿Como é que a Física pode verificar (ver acima a definição de “verificação”) a proposição de que  “não se pode criar matéria a partir do Nada”?

A Física não pode verificar essa proposição senão metendo o universo inteiro dentro de um laboratório. Portanto, o que devemos arranjar, para verificação dessa proposição, é um laboratório do tamanho do universo inteiro que, segundo a teoria da Física de Plasma, não teve Big Bang e, por isso, pressupõe-se que, segundo a teoria da Física de Plasma, é um universo infinito uma vez que não teve qualquer início.

Portanto, vamos ter que arranjar um laboratório infinito para verificar, através de dados da experimentação, que  “não se pode criar matéria a partir do Nada”. Só depois de construirmos esse laboratório infinito — coisa pouca! — podemos verificar se a asserção “não se pode criar matéria a partir do Nada” é verdadeira ou falsa.

“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

→ Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

2/ não podemos divorciar causa e efeito e chamar isso de ciência.

O que a Física de Plasma quer dizer é que, se não existir um nexo causal verificado (ver verificação) entre dois fenómenos, então esses dois fenómenos ou não pertencem à  ciência (neopositivismo), ou inventa-se uma teoria delirante qualquer (que não se baseie na experimentação) para a justificar o nexo causal necessário à  ciência.

Vem daí o conceito de “plasma”, que não é definido pela Física de Plasma (não se sabe bem o que significa, nem a Física de Plasma se preocupa em definir “plasma”); ou o conceito “electret”, que é uma espécie de “gambozino da teoria da Física de Plasma”. Assim como Heidegger inventou o conceito de Dasein (que ainda hoje ninguém sabe bem o que é), assim a Física de Plasma inventou o conceito de “electret” que é uma espécie de “Dasein da Física”.

3/ a Física de Plasma nega o Big Bang

A teoria do Big Bang é controversa, mas baseia-se em alguns dados da experimentação. Neste sentido é uma teoria credível, porque assenta em inferências.

¿O que é uma inferência? A inferência é o acto que consiste em admitir como verdadeira uma proposição que não é directamente conhecida como tal, e por referência a outras proposições verdadeiras com as quais está ligada.

A inferência é dedutiva ou demonstrativa, quando a conclusão é logicamente necessária (como num silogismo, por exemplo). É indutiva ou não demonstrativa (indução) quando a conclusão não é mais que provável ou verosimilhante (por exemplo: “infiro a existência de um cão, se ouço ladrar”).

Portanto, a inferência que sustenta a teoria do Big Bang é indutiva — ou seja, é verosímil  que tenha existido o Big Bang, mas não há uma certeza. ¿E por que razão é verosímil que tenha existido o Big Bang?

A/ a descoberta do movimento de expansão das galáxias por intermédio do telescópio Hubble;

B/ a constatação empírica (experimentação) da existência da radiação isotrópica que sugere uma espécie de “resíduo fóssil” proveniente de uma explosão inicial.

Portanto, a teoria do Big Bang é mais credível do que a a teoria da Física de Plasma que não tem qualquer teoria para a existência do universo. É neste sentido que a Física de Plasma é uma teoria da não-teoria — é uma teoria que recusa qualquer teoria acerca da existência do universo, o que é uma reafirmação do neopositivismo.

É sempre melhor ter uma teoria — por mais estapafúrdia que seja — do que não ter nenhuma, ou pior, recusar ter qualquer teoria como faz a Física de Plasma: por isso é que é uma teoria da não-teoria.

4/ a matéria não pode ser destruída – e por isso não existe antimatéria

Parte-se de um princípio falso segundo o qual a antimatéria significa “destruição da matéria”.  Trata-se de uma falsa dicotomia. Desde logo, a ciência — incluindo a Física de Plasma — ainda não sabe bem o que é “matéria”. E se a ciência não sabe bem o que é a matéria, ¿como pode afirmar que a matéria não pode ser destruída? Como pode verificar essa asserção?


Há algumas verdades na teoria da Física de Plasma. E são essas verdades que alimentam um certo delírio interpretativo de quem procura protagonismo na comunidade científica.

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