Olavo de Carvalho e o “novo comunismo russo”

 

A História da Rússia não começou com a revolução marxista/comunista de 1917, assim como a História da Ucrânia não começou em 2014. Mas a cultura política americana parte desses princípios errados.

Aquilo que Olavo de Carvalho diz e que aparentemente critica na Rússia — “não é preciso estatizar a economia: basta estatizar a cultura, a educação, a moral” — é o que está a acontecer na maioria dos países ocidentais, Estados Unidos incluídos. Antes de mais temos que saber o que significa realmente “estatizar” ou “Estado”.

A primeira concepção de um Estado moderno é a de Aristóteles, e é a de um império quase universal que o seu aluno, Alexandre O Grande, irá tentar realizar. Nesse Estado de Alexandre, separou-se a soberania religiosa, civil, e militar, originando uma administração  burocrática. Quando falamos em “burocracia do Estado”, devemos recuar ao tempo do império de Alexandre. Portanto, o conceito de “Estado omnipotente” não nasceu com Lenine ou Estaline.

Obviamente que o Estado do Absolutismo dos czares da Rússia — por exemplo, o imperador Pedro O Grande — tendia para legitimar esse “Estado omnipotente”; mas o fenómeno do absolutismo monárquico não nasceu na Rússia: nasceu em França, e depois espalhou-se por mimetismo cultural e político por várias nações da Europa, incluindo a Prússia, a Espanha, a Rússia, e até Portugal. O actual presidencialismo francês é um resquício formal desse absolutismo monárquico.

Em relação aos Estados Unidos, damos agora o exemplo evidente — não necessita de demonstração — da usurpação do sistema judicial em relação aos mecanismos democráticos.

Por exemplo, um Estado federal americano faz um referendo sobre o “casamento” gay (por exemplo, a Califórnia), e 80% da população desse Estado vota contra o “casamento” gay. Em seguida, o Supremo Tribunal de Justiça desse Estado vem contrariar a vontade do povo expressa no voto, obrigando os políticos a legalizar o “casamento” gay. Esta é uma forma de “estatizar a cultura, a moral e a educação” — mas parece-me que Olavo de Carvalho não se refere aos Estados Unidos: ele preocupa-se principalmente com a Rússia de Putin.

Quando o poder judicial se substitui ao poder político democrático referendário, como acontece hoje nos Estados Unidos, não podemos dizer que “os americanos são os heróis e os russos são os maus da fita”. Ou há democracia, ou não há: não há meio termo. Ou há princípio da separação de poderes, ou não.

Pelo menos em teoria, o único pais democrático em todo o mundo é a Suíça, em que o referendo tem força de lei e não há poder judicial que contrarie o voto popular.

Os Estados Unidos não são hoje exemplo credível de democracia e de ausência de estatização da cultura, da moral e da educação.

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