A matemática e os órgãos dos sentidos

 

“Quando vão entender que qualquer expressão matemática só corresponde a uma realidade analogicamente, e que em última instância o único juiz dessa correspondência é o testemunho dos tão desprezados órgãos dos sentidos?”

→ Olavo de Carvalho

É verdade a que matemática parte de postulados — e não de evidências —, mas também é verdade que os órgãos dos sentidos fundamentam-se em crenças; e o problema é o de saber quando e se essas crenças (e não me refiro a fé religiosa, que é outra coisa) ditadas pelos órgãos dos sentidos são verdadeiras ou falsas.

Por exemplo, se os órgãos dos sentidos são o único juiz da realidade, então o darwinismo está correcto — até porque o darwinismo é fortemente intuitivo e não propriamente atreito a formalismos matemáticos. Ora, a principal objecção em relação ao darwinismo é que se baseia quase exclusivamente nos órgãos do sentidos (por exemplo, a comparação visual de Ernst Haeckel entre um feto de um peixe e um feto humano). É mesmo contraditório que um cientista aceite simultaneamente e sem reservas o darwinismo e a física quântica. Nenhum biólogo darwinista (passo a redundância), digno desse nome, deixa de ser fortemente céptico em relação a qualquer aspecto da física quântica, porque a biologia tem como fundamento os órgãos dos sentidos, a categorização da informação que recebe dos órgãos dos sentidos, e a intuição sensível.

Do empirismo só podemos esperar soluções empíricas.

Eu estou de acordo com Olavo de Carvalho quando ele separa a matemática, por um lado, do testemunho dos órgãos dos sentidos, por outro  lado. Mas já não estou tão certo sobre se o único juiz da realidade é o testemunho dos órgãos dos sentidos (ver teoria do balde).

Penso mesmo que este problema é insolúvel — refiro-me ao problema do juízo sobre a realidade ou sobre partes dela — se não seguirmos S. Tomás de Aquino: “A verdade é a adequação do intelecto à  realidade”. S. Tomás de Aquino falou em “intelecto”, e não em “órgãos dos sentidos”.

É claro que o intelecto interpreta a informação que nos chega dos órgãos dos sentidos, mas também  coloca em causa essa informação; o intelecto questiona os órgãos dos sentidos. Portanto, os órgãos dos sentidos não podem ser o único avalizador da realidade.

Os órgãos dos sentidos são imprescindíveis para a sobrevivência do ser humano em um mundo com determinadas características. Mas, ao contrário do que defendeu Bergson ou Husserl (cada um à  sua maneira), é a inteligência e não só a intuição que permite construir conceitos capazes de descrever partes da realidade.

A intuição leva a dizer que a Terra é plana e/ou que o homo sapiens é descendente do macaco segundo um processo aleatório de evolução. A intuição salva as aparências. A intuição é necessária, mas já verificámos o facto do recuo da intuição sensível em favor da inteligência (do “intelecto”, de S. Tomás de Aquino). É o intelecto (que inclui a matemática) e não a intuição que nos diz que, mesmo que seja verdade que o homem descenda do macaco, isso não poderá ter acontecido através de “um processo aleatório de evolução mediante pequenos passos”.

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