A Raquel Varela e o horário de trabalho de 21 horas semanais

 

Eu não sou libertário e por isso estou à  vontade para dizer que o programa televisivo “Barca do Inferno” deveria ser enviado para o diabo que o carregue. Não podemos viver em uma sociedade em que o mais sórdido é permitido, em que a razão é violentada por uma classe académica com “direitos de Estado” adquiridos. Mesmo os canais de televisão privados não têm o direito de ter programas que defendam o absurdo, ou que convidem pessoas a defender publicamente o absurdo.

A Raquel Varela mistura no mesmo saco três fenómenos distintos: 1/ a concentração excessiva de capital que acontece hoje (como aconteceu no século XIX); 2/ as horas semanais de trabalho; 3/ o desemprego.

1/ a concentração excessiva de capital é uma realidade, mas está ligada ao fenómeno político da desnacionalização. Que eu saiba, a Raquel Varela — à  semelhança do Bloco de Esquerda — defende a permanência de Portugal no Euro.

2/ as horas de trabalho devem estar ligadas a uma ética de recompensa por quem mais se esforça e se preocupa com o trabalho.

Reparem bem como a Raquel Varela defende 21 horas de trabalho semanais sem redução de salário. É isto que deveria ser proibido de passar na televisão do Estado, nem que se tivesse de demitir a administração da RTP.

Para a Raquel Varela, a produtividade é uma coisa mágica que não depende do contexto político, cultural e social em que uma sociedade está inserida.

3/ a Raquel Varela não quer a saída de Portugal do Euro, e portanto defende a desnacionalização de Portugal (Trotskismo). Mas, ao mesmo tempo, pensa que a economia portuguesa poderá crescer, estando dentro do Euro, 2 a 3% por ano para permitir a absorção do desemprego — o que é uma impossibilidade objectiva.

Só saindo do Euro, Portugal poderá ter taxas de crescimento iguais ou superiores a 2% ao ano. Portanto, quem defender o Euro terá que defender necessariamente um desemprego alto. Claro que, no primeiro ano da saída do Euro, instala-se uma situação económica caótica em Portugal; mas passada primeira fase de choque económico, a economia passa a crescer tanto ou mais do que cresceu na década de 1990.

Portanto, há que escolher: ou o Euro e desemprego alto; ou fora do Euro e absorção de desemprego.


Adenda:

A economia é uma ciência social. Estar fora ou dentro do Euro têm vantagens e desvantagens, segundo a ciência económica.

Mas a opção de estar dentro ou fora do Euro é uma opção ética que não é determinada pela ciência económica: a ciência, qualquer que seja, não determina e não define a ética. Essa opção ética, qualquer que seja, está a montante da política, ou seja, influencia a política.

Isto significa que quem utiliza a ciência económica para defender a permanência de Portugal no Euro escamoteia ou esconde uma opção ética: a de que é preferível um desemprego alto a um desemprego baixo. Cada um defende a ética em que se vê reflectido.

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