Os gnósticos modernos

 

A Gnose foi um movimento religioso da Antiguidade Tardia que teve as suas raízes em uma visão dualista (dualismo ontológico, e não propriamente um dualismo cartesiano) proveniente do Oriente [por exemplo, do Parsismo e do Maniqueísmo], e de acordo com a qual existe uma contradição entre o espírito e a matéria, bem e mal, luz e trevas. Os primeiros textos gnósticos datam do século II d.C.; as suas origens são obscuras; mas, provavelmente, a Gnose desenvolveu-se, no império romano, paralelamente ao Cristianismo e como uma grandeza religiosa independente.

(texto longo, com 1900 palavras)

O que é comum às diversas correntes gnósticas é uma concepção da existência marcada por um pessimismo radical em relação ao mundo enquanto tal 1 , e um dualismo ontológico profundo, por uma incerteza em relação à existência, pelo medo em relação ao mundo e medo de si próprio.

Segundo a Gnose, a salvação resulta do conhecimento (vem daí o termo “Gnose”) e obtém-se através do conhecimento da realidade. Existe, na Gnose, um sentimento de que o mundo é mau, a realidade existencial é negativa, e que a nossa pátria fica em outro lugar (utopia).

Os conteúdos da Gnose são sempre sincréticos (sincretismo religioso), e estão associados a tradições helenistas, mandeias, maniqueístas e sobretudo cristãs. Ou seja, trata-se de uma religião parasita, porque se serve de outras tradições religiosas, embora organizando-as de formas diferentes.

A Gnose foi identificada durante muito tempo como uma heresia cristã. Só no século XV é que se descobriu que a Gnose deveria ser encarada como uma forma específica de conceber a existência. Esta tese é confirmada pelo Corpus Hermeticum não cristão2 , uma colecção de escritos cuja figura central é Hermes, um deus grego, e pelas descobertas de Nag Hammadi3 . Desde então impôs-se a convicção de que a Gnose constitui uma religião autónoma da Antiguidade Tardia.

Resumindo: apesar da multiplicidade de mitos, é possível reconhecer uma estrutura comum da Gnose:

  • valorização negativa da realidade concreta — que traduz o niilismo moderno e actual;
  • um pessimismo em relação ao mundo — que, na modernidade, traduz uma necessidade de mudar o mundo inteiro no seu fundamento;
    o ser humano considera-se a si próprio como um estranho atirado para este mundo — que traduz o moderno escapismo (escape em relação à  realidade), ou cultura escapista actual;
  • o ser humano sofre por causa do mundo (a moderna importância fundamental do sofrimento humano no mundo), o que significa que o ser humano está destinado a uma outra e melhor realidade (a utopia moderna do paraíso na Terra).

Na Gnose, a experiência dualista fundamental é de tal forma radical que a alternativa ética colocada ao ser humano se transforma em um Dualismo do Ser, e baseia-se, desde o início, no Cosmos e na sua realidade. A imagem de Deus é dualista: de um lado está o Deus superior, acima do mundo, espiritual e bom,  com o seu domínio (o pleroma) e os seus habitantes (os eons) e, do outro está o criador do mundo, o incapaz e ignorante demiurgo (que é o Deus cristão e, em certa medida, o Yahweh da Torah) e os seus acompanhantes (arcontes, espíritos planetários e outros), a matéria, o Cosmos, e o mundo dos seres humanos. Para os gnósticos, o mundo tal qual se apresenta é um produto do infortúnio e fraqueza (infortúnio e fraqueza que devem e têm que ser remediados e rectificados), e o Deus superior (que corresponde, na modernidade, por exemplo, à utopia da ciência enquanto cientismo) não é responsável por ele.

O Deus bom (a utopia moderna que é certeza do futuro) estava confrontado com um mundo no qual o bem está ligado ao mal. Ora, o Deus bom (a utopia moderna) não podia ter qualquer contacto com o mundo imundo, para não se conspurcar. Por isso inventou-se um domínio entre esse Deus bom e o mundo, o pleroma (a “plenitude”) — que corresponde, por exemplo, ao conceito de sociedade de Fourier e dos socialistas franceses do século XIX, mas também à  utopia de Karl Marx  —, constituído por seres espirituais mistos emanados de Deus em uma sequência complexa de tríades, octoades, etc.. As figuras menores do pleroma, emanadas de Deus (imanência neoplatónica e monista) desviaram-se da sua origem (Engels reflecte esta ideia do desvio do ser humano em relação aos tempos comunitários primordiais, e Julius Evola faz o mesmo de outra maneira) por causa da cegueira, do erro (plané) e do pecado (por exemplo, em Rousseau e em Engels, o pecado é a propriedade privada), encarnando agora, a humanidade, o princípio contrário, ou seja, do mal do demiurgo materialista, das trevas e da mentira (por exemplo, o capitalismo). Existem formas radicais de Gnose, por exemplo em Marcião (falecido por volta de 160 d.C.), em que o princípio do mal é tão primordial como o Deus bom.

Os mitos gnósticos apresentam o princípio ou fundamento do Mal como sendo o criador do mundo, o demiurgo que é o Deus da Bíblia cristã e o Yahweh da Torah. O Deus do Cristianismo representa o mal. Na sua cegueira, o demiurgo (o Deus cristão) não sabe o que cria e o que causa (é ignorante), e por isso, a Criação é um acidente (a Criação aconteceu por acaso, como defende Richard Dawkins e grande parte dos cientistas). O demiurgo cria tudo, misturando o espiritual e o luminoso com o material e o obscuro; ele expulsa as almas humanas para a matéria (o demiurgo impõe ao ser humano o sofrimento que é necessário erradicar através da realização da utopia). Sendo que o mundo do demiurgo é marcado pela coexistência entre o bem e o mal, o gnóstico deseja a libertação das circunstâncias materiais que o limitam e motivam para o mal (com a eliminação e erradicação da culpa, nos gnósticos modernos: o dualismo gnóstico foi e é uma forma de autodesculpabilização ética e ontológica).

Embora as almas humanas desejem a salvação, não sabem como podem alcançá-la: falta-lhes a Gnose, o conhecimento dos verdadeiros nexos causais (nexos científicos, na modernidade) e éticos que constitui o fundamento para um comportamento correcto (politicamente correcto, na modernidade). As almas não podem alcançar esta gnose pelas suas próprias forças e, então, os eons do pleroma (os cientistas e políticos gnósticos modernos e utopistas) assumem a tarefa de aproximar as almas dispersas nos corpos humanos e entregues ao engano e ao erro, ensinando-lhes o conhecimento sobre os verdadeiros nexos causais e, portanto, sobre a sua salvação4 .

Os gnósticos dividiram os seres humanos em três grupos (as classes, segundo o gnosticismo moderno): os Pneumáticos (os espirituais, ou a elite utopista e progressista moderna) que têm plena participação na gnose (conhecimento); os psíquicos, que são aqueles que ou estão perdidos (não ganharam ainda a consciência da importância da gnose), ou podem alcançar a salvação através da fé (na ciência) e das obras; e os Hílicos, (rendidos à  matéria e ao mal, os capitalistas modernos), para os quais não existe salvação.

Portanto, a Gnose é uma religião elitista e esotérica, para a qual o mundo (tal qual se apresenta e que necessita de uma reformulação radical no seus fundamentos) e a História não possuem senão um sinal negativo — por isso é que é necessário recusar o mundo tal qual este se apresenta (a “Grande Recusa”, da Utopia Negativa de Marcuse e Adorno), e a História tem que ser desconstruída e reconstruída, por um lado, e, em um segundo momento, tem que ser esquecida, por outro  lado — porque o ser humano deve libertar-se do mundo mau e da História através de um processo de anulação dos efeitos que o acidente cósmico (a Criação, do demiurgo) teve para ele (no mundo moderno, é por exemplo o processo de desligamento entre o determinismo do nascimento e a autonomia da vontade em relação à  Natureza e à  Lei Natural, que se traduz por exemplo na ideologia de género).

Na Gnose, o surgimento do mundo de uma emanação (neoplatonismo) de Deus remete para um princípio monista helenista (monismo imanente que marcou quase toda a filosofia moderna, desde os teóricos do Iluminismo, dos enciclopedistas franceses, de Schelling a Hegel passando por Nietzsche, da maior parte dos “filósofos” do século XX com pináculo em Heidegger) que também determina a “solução do problema”: o dualismo é eliminado (por exemplo, o Absoluto imanente e monista de Hegel que é o fim do movimento triádico da dialéctica) quando as almas humanas, que se encontram espalhadas e desorientadas, voltam-se a juntar ao pleroma ou paraíso na Terra.

Quando comparamos a Gnose da Antiguidade Tardia e a da modernidade, devemos olhar para a forma e não tanto para o conteúdo, porque os conceitos do conteúdo transformam-se adaptando-se aos tempos diferentes, mas é a forma que se mantém idêntica ao longo de séculos.


Notas
1. não se trata de um pessimismo em relação à  bondade do ser humano, como encontramos por exemplo em Nicolás Gómez Dávila ou em G. K. Chesterton: trata-se de um pessimismo em relação à  realidade da existência que inclui o próprio Cosmos.

2. o hermetismo deriva o seu nome do deus grego Hermes, que é designado como Trismesgistos (o três vezes maior”). A religião grega clássica considera-o mensageiro dos deuses; no Egipto, foi equiparado ao deus Thoth, o escrivão dos deuses e o deus da sabedoria (o epíteto de “três vezes maior” também tem origem no Egipto). Hermes está associado a conteúdos astrológicos, mágicos e filosóficos. O Corpus Hermeticum, transmitido em grego e composto por 18 Tratados, dos quais o primeiro (Poimandres) era o mais conhecido, é muito importante para o conhecimento do hermetismo, que consiste num sincretismo de ideias aristotélicas, platónicas, estóicas e gnósticas. A sua intenção principal é a divulgação de uma gnose cujo conteúdo consiste no conhecimento de Deus e da salvação; é certo que existiram e existem comunidades herméticas. Desenvolve-se uma cosmogonia, com uma sucessão cosmogónica de hipóstases (emanação neoplatónica e imanente): Deus, Aion, Cosmos, Cronos, Génesis, etc., um mito do arcantropo (ser humano primordial e, simultaneamente, filho de Deus, Nous ou espírito) que caiu na matéria, e uma escatologia (imanentização do Eschatos). Existem algumas associações estóico-optimistas (por exemplo, alguma maçonaria), mas predomina um pessimismo gnóstico em relação ao mundo: o mundo é visto como “plenitude” (pleroma) do mal.],

3. Nag Hammadi, situada no Egipto superior, na margem esquerda do rio Nilo, fica perto do local onde, em 1945, um grupo de agricultores encontrou um pote de barro com 15 códigos em papiro, escritos na segunda metade do século IV d.C.. Estes escritos englobam 15 volumes com 52 obras de origem  e género muito diferentes. No que diz respeito às formas literárias, podemos encontrar Evangelhos, diálogos apócrifos de Jesus com os discípulos, apocalipses, cartas, tratados de ética, tratados relativos à  doutrina sobre as almas, cosmologia, soteriologia (salvação), textos litúrgicos. A maior parte destas obras está escrita em saídico (língua copta); a maioria é constituída por traduções de originais gregos. Para além de textos do helenismo e Judaísmo gnósticos, encontra-se obras do Cristianismo gnóstico (a maioria delas), por exemplo, o Evangelho de Tomás e de Filipe, O Evangelho da Verdade, o primeiro e o segundo Apocalipse de Tiago.

4. O debate do Cristianismo primitivo com a Gnose foi difícil porque os cristãos helenistas tinham um pensamento semelhante aos gnósticos: por isso é que as convicções gnósticas também se propagaram no Cristianismo.

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