A atomização da sociedade conduz a um colectivismo totalitário

 

A ideologia de género é mais um passo negativo no impulso da individualização do ser humano que se iniciou na Europa com o Cristianismo. Com o Renascimento e com Lutero, esse impulso de individualização aumentou (viragem subjectiva). Com o Iluminismo (por exemplo, com Kant), esse impulso de individualização atingiu o seu auge enquanto sistema sujeito a uma determinada ordem.

A partir do século XIX, o impulso de individualização tornou-se caótico e a-social (liberalismo e Marginalismo): os motes liberais eram os de “salve-se quem puder”, e “pimenta no cu do meu vizinho é chupa-chupa”.

A religião cristã, que tinha sido durante séculos um elemento de aglutinação social e cultural na Europa, passou a ser criticada (viragem crítica), em primeiro lugar, pelos liberais vendidos à  burguesia (por exemplo, Voltaire), e depois pela chamada Esquerda Hegeliana (por exemplo, Feuerbach).

Na ala liberal de fins do século XVIII e do século XIX, surgiu o deísmo, que pressupunha a ideia de Deus porque permitia explicar racionalmente o surgimento do universo e a obrigação moral do ser humano; mas, segundo o deísmo, Deus não voltara a interferir no rumo do mundo após a criação (o “Deus ausente” do gnosticismo da Antiguidade Tardia), pelo que o ser humano teria que exercer o seu conhecimento (vemos aqui uma variante da gnose) e a sua acção de forma autónoma. Este deísmo conduziu, numa primeira fase, a uma negação da Revelação do Cristianismo e, por fim, já em finais do século XIX, a uma crítica fundamental do Cristianismo que acabou por se transformar num ateísmo formal.

No fim do século XIX, tanto à  Esquerda (a Esquerda Hegeliana) como à  Direita (liberalismo marginalista), o cimento social e cultural da Europa (o Cristianismo) esboroa-se progressivamente.

Desta “bifurcação”, por assim dizer, entre a Esquerda e a Direita a partir do século XIX, surgiram dois pólos de religiões seculares, ou religiões políticas — embora haja casos em que os dois pólos se misturem, como por exemplo na religião secular de Comte ou no materialismo dialéctico marxista.

O primeiro pólo aposta no sentido (da vida humana) oferecido pela História, e o segundo no sentido (da vida) oferecido pela Natureza.

Em ambos os casos, o ser humano transformou-se no Deus das novas soteriologias (o ser humano substitui Deus), mas os dois pólos das religiões seculares possuem uma vertente daquilo a podemos chamar de “transcendência imanente”, que transforma o futuro da espécie humana no sentido de vida do indivíduo. Comte escreveu: “o indivíduo não existe, de facto; só pode existir a humanidade”. Tinha começado a entropia do conceito de “indivíduo”, em oposição ao impulso de individualização iniciado pelo Cristianismo.

Para o positivismo, o ser humano concreto só pode prolongar a sua vida (para além da morte) na espécie humana — o que explica a cultura da classe política actual, com exemplo do agnóstico Mário Soares ou do agnóstico José Pacheco Pereira: ficar com o seu nome gravado na História é a libertação da morte, é viver para além da morte). A humanidade do futuro transforma-se em uma esperança transcendental, o “novo ser superior”, segundo Comte. O conceito de Comte orienta-se para a História, apostando em uma nova humanidade futura (o “Homem Novo”); mas como não há (segundo o maçon Comte) nenhum Deus que garanta a vida depois da morte, o positivismo cai numa mitificação monista (ver monismo) da espécie humana, na qual o indivíduo se deve inserir de uma forma que elimina todas as individualizações: só então ele (o ser humano) poderá ver as suas esperanças serem assumidas no futuro da humanidade (a “salvação” é o futuro da espécie, e não do indivíduo!). Vemos como o impulso da individualização, iniciado pelo Cristianismo, se vai anulando, paradoxalmente em nome da protecção dos interesses do ser humano transformado em Deus.

Como não existe um Deus que possa “prender” o indivíduo, as tentativas de dar um sentido à vida do indivíduo são todas niilistas, não abrindo qualquer perspectiva de esperança humana individual (Nietzsche, Heidegger, Jean-Paul Sartre). A versão secular de uma experiência religiosa mais evidente só é possível se o indivíduo se inserir no colectivo que o transcende, inclusivamente do ponto de vista do futuro. O impulso de individualização cristão foi mandado às malvas.


O segundo pólo das religiões seculares ou políticas é o materialismo — a forma radicalmente secular dos monismos modernos; um materialismo motivado pelas Ciências da Natureza e promovido pelo materialismo da Esquerda Hegeliana (Feuerbach, Engels, Karl Marx) e, mais tarde, o materialismo dialéctico que foi a religião secular dos países do Bloco de Leste até à  famigerada queda do muro. O materialismo oferece uma resposta negativa à questão do sentido da vida, e não satisfaz em termos soteriológicos (em termos de “salvação” do ser humano), já que a única previsão que faz para o “fim do ser humano” é a sua diluição na matéria.

Mas, também aqui existe uma perspectiva de futuro “transcendente” (que é de facto imanente) que supera as perspectivas do indivíduo devido à  orientação deste monismo para o colectivo — tal como acontece, por exemplo, com a combinação do materialismo dialéctico com a utopia histórica de uma sociedade sem classes. Mais uma vez, o impulso de individualização introduzido pelo Cristianismo é aqui anulado.

Em ambos os pólos, trata-se de um futuro bom, que inverte totalmente todas as situações actuais, por exemplo, em uma sociedade sem classes e sem dominação. Esta utopia não é menos transcendente do que Deus!, apesar de ser preenchida com conteúdos concretos (utopia concreta): e não é menos transcendente do que Deus porque também ela ultrapassa todas as possibilidades de afirmação verificáveis do ponto de vista empírico: ou seja, trata-se de uma religião no pleno sentido da palavra!, apesar da sua combinação com o materialismo.

No entanto, em ambos os pólos, a resposta à  questão do sentido (da vida do indivíduo) só é possível se se realizar um auto-nivelamento (uma auto-anulação) do indivíduo na sociedade (com excepção para a elite política gnóstica, obviamente). O impulso de individualização cristão terá que ser anulado ou invertido para que se possa vislumbrar um qualquer sentido para o indivíduo.


Escrevo este verbete porque li este.

A ideologia de género e/ou a absolutização de direitos das minorias (por exemplo, os putativos direitos dos gays), parecendo que são impulsos de maior individualização, inserem-se nestes dois pólos (ou na sua mistura) das religiões seculares que tendem ao auto-nivelamento do indivíduo.

À  primeira vista, o leitor poderá pensar: “a ideologia de género dá mais autonomia ao indivíduo”.

É nisto que está a genialidade do politicamente correcto, e nomeadamente a ideologia de género: atomizando a sociedade, auto-nivela o indivíduo na sociedade tendo em vista a sua “salvação” mediante o futuro da História que trará o Homem Novo à  custa de uma religião secular monista que sacrifica o individual ao colectivo. Absolutamente genial!

Escreve-se aqui:

“Quando eu andei na Escola, bem sei que já foi há muito tempo, ensinaram-me que o primeiro instinto de qualquer animal, cão, gato, aranha ou homem, é o da conservação da espécie, ou seja: um animal faz tudo para que a espécie sobreviva e se propague. Só depois vem o instinto da conservação do próprio.”

Nota-se aqui como as religiões seculares ou políticas se entranharam de tal modo na nossa cultura antropológica que até a crítica à  ideologia de género é feita através de um conceito monista materialista (proveniente da sociobiologia que compara a natureza humana à  natureza animal).

Em boa verdade, no ser humano, o que normalmente (em juízo universal) está em primeiro lugar é a auto-conservação individual, e só depois e decorrente do instinto de auto-conservação, vem a urgência da conservação da comunidade em que o indivíduo vive (e nunca da espécie humana). Não podemos comparar a Natureza Humana com a de qualquer outro animal. Fernando Pessoa escreveu:

A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização.

Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá-la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive, é um corpo morto.

A morte é isso — a absoluta entrega de si próprio ao exterior, a absoluta absorção no que o cerca. Por isso, o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte: só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. 

Todo o internacionalista deveria ser fuzilado para que obtenha o que quer: a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações, não existe humanidade.

(…)

Na realidade social há só dois entes reais ― o indivíduo, porque é deveras vivo, e a nação, porque é a única maneira como esses entes vivos, chamados indivíduos, se podem agrupar socialmente de um modo estável e fecundo. A base mental do indivíduo (…) é o egoísmo (…). Esse egoísmo é o da Pátria, em que nos reintegramos em nós através dos outros, fortes do que não somos.”

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