Um conservador não é um troglodita

 

Eu considero-me “conservador” mas não concordo com muita coisa neste texto. Vamos começar por aquilo com que concordo no texto: o sistema de valores de uma sociedade tem que se fundamentar (não só, mas essencialmente) em valores intemporais — o sistema fundamental de valores não deve mudar conforme as modas de cada época.

Mas (e aqui passo a discordar com o texto), o sistema de valores deve ser racionalmente fundamentado.

Por exemplo, se me demonstrarem (racionalmente) que o “casamento” gay é igual ou semelhante ao casamento propriamente dito (entre um homem e uma mulher), eu não teria qualquer problema em mudar a minha posição de repúdio pelo valor social negativo do “casamento” gay. Mais: mesmo que me digam que o “casamento” gay, não sendo igual ou semelhante ao casamento propriamente dito, traz consigo vantagens para a sociedade, teriam que me demonstrar racionalmente essas vantagens em confronto com as desvantagens que traz à cultura antropológica.

Portanto, o sistema de valores certos contém em si valores intemporais e racionalmente fundamentados. Um conservador não é propriamente um homem das cavernas: pelo contrário, é um homem inteligente na medida em que é céptico em relação à possibilidade de deificação da Natureza Humana.

Isto significa que muitos valores que, alegadamente, “se dirigem à  sobrevivência da sociedade” podem não ser racionalmente fundamentáveis [por exemplo, os nazis estavam absolutamente convencidos de que os seus (deles) valores se dirigiam à  “sobrevivência da sociedade”] — e significa também que o Homem vai descobrindo o Valor (os valores), e provavelmente existem valores que o Homem ainda não descobriu.

Podemos pensar hoje, no nosso tempo, que um determinado valor “se dirige à  sobrevivência da sociedade”, mas uma geração futura poderá chegar à  conclusão, através da experiência, de que estávamos hoje errados. Por isso é que há que ter o cuidado de fundamentar racionalmente os valores, para que corramos menos riscos de errar — embora, ainda assim, a possibilidade de erro se mantenha mesmo com a racionalização fundamentada dos valores.

Se os valores fundamentais de uma sociedade — o tal “sistema de valores” de que nos fala o texto — forem intemporais e racionalmente fundamentados, então tornam-se facilmente reconhecidos nas suas características principais e, por isso, tendem a uma universalização. Por exemplo, se eu disser que “a soma de 1 e 1 é igual ao valor de 2”, estou a fundamentar racionalmente esta minha asserção baseando-me em uma experiência humana quase intemporal. Portanto, o sistema de valores, para além de ser intemporal e racionalmente fundamentado, tem que ser universal.

Por fim, o sistema de valores não pode ser deduzido de uma utilidade qualquer.

Não é por que “um sistema de valores garanta que uma sociedade cresce e prospera” (como se diz no texto) que esse sistema de valores é necessariamente positivo — porque os valores existem em si mesmos e não podem ser deduzidos de uma qualquer utilidade prática. Por exemplo, se deduzíssemos o valor da justiça de uma qualquer utilidade, muito mal andaria a justiça na nossa sociedade…

“O progresso é uma revolta contra a espécie humana.” — Fernando Pessoa

O que pode garantir, até certo ponto, a continuidade histórica de uma determinada sociedade é (não só, mas também) a sua coesão espiritual — a que hoje se chama [“coesão social” + “coesão cultural”] — e não propriamente a riqueza material e a manipulação utilitarista do sistema de valores nela vigente. Portugal, um país pequeno, conseguiu conquistar meio-mundo exactamente porque teve, até meados do século XVI, essa coesão espiritual (Teixeira de Pascoaes).

Por fim, um conservador não é necessariamente um “neófobo”. Fernando Pessoa escreveu o seguinte (Obras em Prosa), e eu concordo:

“Os conservadores [de Direita, nota minha] são aqueles desejam e pretendem que o progresso político ou financeiro da nação se faça por alteração social produzida dentro de moldes políticos e sociais dessa nação”.

(…) 

“Para o conservador, os moldes ficam em forma e em tamanho. Apenas muda o conteúdo.”

“Os liberais [de Direita, nota minha] são aqueles que cuja teoria do progresso inculca a ideia de que ele se faz por uma lenta alteração da sociedade, não tanto  nem somente dentro de moldes em que essa vida social se encontra vasada”.

(…)

“Para o liberal, os moldes alargam-se mas a sua forma fica.”

E sobre a Esquerda marxista, Fernando Pessoa escreveu:

“Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.

O comunismo não é uma doutrina porque é uma anti-doutrina, ou uma contra-doutrina. Tudo quanto o Homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é, de civilização e de cultura — tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.”

— Fernando Pessoa, “Ideias Filosóficas”

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