Um ateu só pode ser ou burro, ou casmurro, ou ignorante

 

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.” — Leibniz

No seu livro “Filosofia Quântica” (edição americana, páginas 191/192), o físico francês Roland Omnès  fala-nos do “efeito de túnel” ou “salto quântico” (tradução livre):

“Mesmo um objecto do tamanho da Terra pode estar sujeito a um efeito de túnel, pelo menos em princípio. Enquanto a força gravitacional do Sol impede a Terra de se afastar através de um movimento contínuo, contudo o nosso planeta poderia subitamente encontrar-se na órbita da estrela Sírio mediante um efeito de túnel.

(…)

Felizmente, mesmo que o determinismo não seja absoluto, a probabilidade da sua violação é extremamente pequena. Neste caso, a probabilidade da Terra se afastar do Sol é tão pequena quanto a de 10^200 (1 seguido de 200 zeros). (…) Em termos práticos, é um acontecimento que não terá lugar.

(…)

Uma característica destas flutuações quânticas [o efeito de túnel] que violam o determinismo [das leis da física clássica], é a de que não podem ser replicadas (repetidas).

Imaginemos que um efeito de túnel foi observado por muitas pessoas: elas vêem uma pequena pedra  subitamente aparecer em um lugar diferente do que estava há milésimos de segundo. Essas pessoas realmente viram o fenómeno, mas nunca serão capazes de convencer mais alguém; nunca poderão demonstrar de forma irrefutável que o fenómeno se possa repetir. Tudo o que essas pessoas podem fazer é jurar: “Juro que a pedra estava ali, à  minha esquerda, e que subitamente apareceu à  minha direita!”. Em resposta, as pessoas que não assistiram ao fenómeno atribuirão esse juramento a gin ou whisky em demasia, outras dirão que aquela gente está maluca, e as pessoas que assistiram ao fenómeno acabarão por se convencer de que foram vítimas de uma alucinação.”


O Ludwig Krippahl escreve o seguinte:

“Hipóteses acerca de milagres ou magia devem ser relegadas ao fim da lista porque não as conseguimos testar. É sempre melhor optar por hipóteses testáveis pois só essas permitem corrigir erros.”

Por exemplo, um efeito de túnel pode ser possível em pequenos objectos — a probabilidade de efeito de túnel aumenta na proporção inversa da massa de um objecto. O efeito de túnel em uma onda quântica é coisa corriqueira. O efeito de túnel em um átomo é coisa vulgar. O efeito de túnel em uma molécula é altamente provável. À  medida em que a massa de um objecto aumenta, diminui a probabilidade de efeito de túnel — o que não significa que o efeito de túnel em uma pequena pedra, por exemplo, seja improvável ou inverosímil.

Se é praticamente impossível que a Terra saia da sua órbita por efeito de túnel, a probabilidade de efeito de túnel  aumenta muitíssimo quando se trata de uma pequena pedra, por exemplo. No entanto, o efeito de túnel não é um milagre no sentido teológico do termo; mas, se acontecesse um fenómeno destes visto por um grupo de pessoas, o Ludwig Krippahl iria dizer que “milagres ou magia devem ser relegadas ao fim da lista porque não as conseguimos testar — e com alguma razão diz ele o que diz, porque como escreveu Roland Omnès, o fenómeno de efeito de túnel de uma pequena pedra visto por aquele grupo de pessoas seria praticamente irrepetível e, portanto, não seria “testável”.

E continua o Ludwig Krippahl:

“Portanto, a forma racional de concluir acerca do que existe não é escolhendo boas razões. É organizando a informação relevante numa interpretação consistente que dependa o menos possível de premissas gratuitas e assente o mais possível em hipóteses testáveis e informativas.”

Confunde-se aqui “boas razões”, por um lado, com as “razões suficientes” de que nos falava Leibniz. Quando se diz “boas razões”, quer-se dizer “razões suficientes”.

Por outro  lado, um fenómeno como o efeito de túnel não é “testável” estatisticamente, mas nem por isso é impossível — a não ser que o Ludwig Krippahl, do alto da sua sabedoria ateísta, considere o físico Roland Omnès como um idiota ignorante (eu não ficaria espantado se tal acontecesse). Aliás, note-se que Roland Omnès é agnóstico, mas mais humilde do que o Ludwig Krippahl. 

Outra burrice do Ludwig Krippahl é falar em “vários deuses propostos por aí”, em vez de se ater à  possibilidade de um princípio causal do universo a que o Cristianismo chama de Deus, o Taoísmo de Tau, o Judaísmo chama de Yahweh, o Islamismo chama de Alá, etc.. — o que apenas revela, da parte dele, uma total ignorância da história das religiões, e, portanto, ele fala daquilo que absolutamente desconhece, o que é lamentável.

O que o Ludwig Krippahl pretende dizer, em resumo, com aquele relambório contra as “crenças religiosas”, é o seguinte:

O critério da verdade é a verificação  1. Tudo o que não é verificável é de verdade duvidosa”.

Por um lado, o fenómeno relatado por Roland Omnès do efeito de túnel de uma pequena pedra, sendo possível, não seria nunca, jamais, verificável. Portanto, mesmo que o dito fenómeno seja visto por um grupo de pessoas, é considerado pelo Ludwig Krippahl como uma falsa crença talvez devido a uma alucinação daquelas pessoas (ou muito vinho à  mistura).

Mas, por outro  lado, essa proposição (“o critério da verdade é a verificação”)  não é, ela própria, verificável! — o que significa que a ciência parte do mesmíssimo princípio metafísico que fundamenta as religiões; mas duvido que alguma vez o Ludwig Krippahl derreta o alcatrão que tem no cocuruto da sua (dele) cabeça para perceber uma coisa tão simples.


Nota
1. Processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição. A verificação demonstrativa pertence à ordem do cálculo, no que diz respeito às ciências formais.

Nas ciências empíricas, é discutível falar de “verificação”. Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). Quando a hipótese passa com sucesso um controlo que a poderia ter “falseado”, é melhor falar, em vez de “verificação”, de confirmação ou de corroboração, que são sempre “até prova em contrário”.

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