O papa e a teoria modernista dos chapéus

O caro leitor José Lima escreveu o seguinte comentário a este verbete:

O sítio para que o Orlando liga é um sítio sedevacantista com todos os graves defeitos decorrentes dessa qualidade. Muito sucintamente, os sedevacantistas confundem a infalibilidade papal (que existe apenas nas exactas condições em que o Concílio Vaticano I a definiu) com uma pretensa inerrância papal, caindo assim num culto idolátrico da pessoa do Papa que nada tem de católico. Para eles, o Papa não se pode enganar jamais em qualquer pronunciamento que faça (independentemente desse pronunciamento reunir ou não os requisitos da infalibilidade papal tal como a definiu o mesmo Concílio Vaticano I) e portanto se isso sucede, como sucede com Francisco, essa pessoa não é, não pode ser o Papa, estando por isso vazia (“sede vacante”) a cadeira de Pedro.

Porém, a verdade é que fora das condições em que se verifica a infalibilidade – pronunciamento solene e formal, em matéria de fé ou moral, com a intenção de proferir um juízo definitivo a que todos os fiéis devem assentimento -, fora deste magistério extraordinário assistido pelo Espírito Santo, o Papa pode mesmo equivocar-se e até cair em heresia: pode equivocar-se no seu magistério ordinário e não infalível; pode equivocar-se quando se pronuncia como mero doutor privado (condição em que caem as famosas entrevistas de Francisco).

Outrossim, existem diversos casos históricos de Papas que caíram em heresia, sem contudo jamais terem comprometido a sua infalibilidade. Não diria que Alexandre VI fosse herético, mas antes escandaloso – um Papa não tem necessariamente de ser um modelo de santidade e piedade (embora devesse), podendo cometer muitos e graves pecados mortais -, mas em heresia caíram antes Papas como Libério (ariano), Honório (monofisita) ou João XXII (negou o julgamento particular imediato “post mortem” da alma), e com a heresia (modernista) têm tergiversado os Papas pós-Concílio Vaticano II, muito em especial, Francisco.

Obviamente que em caso de Papas heréticos – como no de qualquer outro dignitário eclesiástico herético – cessa automaticamente o dever que os fiéis têm de lhes obedecer. O Orlando cita, e bem, o ensinamento de São Roberto Belarmino; poder-se-ia, ao caso, acrescentar o que ensina sobre a obediência lícita e a recusa da obediência ilícita o próprio São Tomás de Aquino – https://www.fisheaters.com/summa22104.html


Há aqui três aspectos que convém sublinhar:

1/ é preciso perceber em que contexto histórico foi declarado o dogma da infalibilidade papal. Mais: antes de finais do século XIX, nunca houve, na Igreja Católica, um qualquer consenso sobre a infalibilidade do papa. A prova disto é a opinião de São Roberto Belarmino que foi citada1.

2/ o sedevacantismo não é um mal em si mesmo: o que pode ser má é a interpretação que se faz para se defender o sedevacantismo. Ademais, e como muito bem expôs São Roberto Belarmino1, o sedevacantismo pode ser alegórico ou simbólico, e não uma exigência real e física de que o papa se apeie da cátedra de S. Pedro.

3/ neste momento existe um Papa Emérito, e portanto qualquer ideia sedevacantista é absurda. Mesmo que consideremos que o “papa Francisco” não é um papa legítimo, temos Bento XVI ainda vivo. Um papa não deixa de o ser porque uma centena de pessoas dizem que ele já não é.

O segundo aspecto que o comentário aborda é o do discurso ex-cátedra do papa.

Uns dizem (um pouco à vontade do freguês) que “ontem o papa falou ex-cátedra, mas hoje não” — conforme convém e em função do tipo de discurso do papa. Se o papa disser, por exemplo, que “o aborto é legítimo”, então sempre se pode alegar que “o papa não falou ex-cátedra”. É um argumento cómodo, ambivalente e ambíguo, à imagem deste papa.

Portanto, vamos, de uma vez por todas, assentar no seguinte:

Um Papa fala, sempre e em qualquer circunstância, ex-cátedra. Tudo o que o papa disser na opinião pública e publicada, é sempre ex-cátedra. Quando um papa dá uma entrevista a um jornal, fala ex-cátedra; quando ele discursa em uma homilia durante a missa, fala ex-cátedra. E quando ele redige e publica uma encíclica, escreve ex-cátedra; e mesmo nas suas conversas privadas com chefes-de-estado, fala ex-cátedra.

A ideia segundo a qual “o papa uma vezes fala ex-cátedra e outras vezes não”, é um modernismo.

chapeusOs modernistas dizem que “o homem moderno tem vários chapéus”: tem, por exemplo, o chapéu do pai de família, tem o chapéu do dono da empresa, tem o chapéu do sócio do clube de vela, tem o chapéu de deputado, tem o chapéu de marido, tem o chapéu de membro da maçonaria, tem o chapéu de sacristão católico (que, alegadamente “não é incompatível com associação maçónica porque os chapéus são diferentes”), etc..

Portanto, segundo a teoria modernista e esquizofrénica dos chapéus, um dos chapéus é o Jorge Bergoglio; outro chapéu é do cardeal Bergoglio; outro chapéu é do papa enquanto pessoa; outro chapéu é do papa enquanto argentino; outro chapéu é do papa enquanto sul-americano; outro chapéu é o de jesuíta; outro chapéu é o do papa que não fala ex-cátedra; e outro chapéu é o do papa que fala ex-cátedra. E provavelmente ainda existem outros chapéus do “papa Francisco” que ainda desconheço.

Um Papa deve falar sempre de forma solene e formal, mesmo quando sorri e brinca um pouco. Temos o exemplo de João Paulo II — não é preciso inventar o que já está inventado. Isso não significa que um Papa não erre: significa apenas que, quando erra, o Papa deve retractar-se, seja directamente, seja por interposta pessoa. Quando um Papa erra falando ex-cátedra (porque não há outra forma de o Papa falar senão ex-cátedra), deve rectificar o seu erro falando ex-cátedra.

O terceiro aspecto é o argumento segundo o qual o mau comportamento de um papa, como por exemplo o papa Bórgia, não o torna herético. A heresia, segundo este argumento, é reduzido ao desvio da doutrina, ou seja, ao desvio da teoria separada da prática. A prática de vida do papa não interessa nada.

Este argumento também é modernista e advém da Nova Teologia e do Concílio do Vaticano II. Quando São Roberto Belarmino escreveu sobre o direito de desobedecer ao papa1, não se referiu apenas à heresia da doutrina: referiu-se também ao comportamento — aos actos, às obras — do papa. Para a Nova Teologia e para o protestantismo que foi aceite pelo Concílio do Vaticano II, as obras contam menos do que a putativa fé — mesmo que saibamos que a fé é subjectiva e, por isso, não se pode quantificar objectivamente.


Nota
1. “Tanto quanto está autorizado a resistir a um Papa que comete uma agressão física, do mesmo modo que é permitido
resistir-lhe se faz mal às almas ou perturba a sociedade e, com mais forte razão, se procurasse destruir a Igreja — é permitido, digo, opor-se a ele não cumprindo as suas ordens e impedindo que a sua vontade seja realizada.

Não é lícito, contudo, julgá-lo em tribunal, impor-lhe punição, nem o depor, pois estes são actos próprios a um superior”.

São Roberto Belarmino, De Romano Pontifice, Livro II, Capítulo 29.

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