Os "católicos fervorosos" e o dogma da infalibilidade papal

 

Em um comentário a este verbete acerca do dogma da infalibilidade papal, alguém escreveu este comentário:

“Um dogma é uma Verdade, como tal não passa a “existir” quando é definido. E a sua origem não invalida (nem valida) a sua veracidade, evitar cair na falácia genética. O Espírito Santo  “permitiria” (como não permitiu outras heresias anteriores) que se aceitasse como dogma algo que não fosse verdade antes? a pergunta é retórica claro, não sabemos a resposta, mas o que é que pensa disto?”

1/

Antes de mais, temos que saber o que é um dogma — porque, de contrário, não sabemos do que estamos a falar.

Um dogma é ponto de uma doutrina estabelecido e considerado intangível e indiscutível numa escola filosófica ou religiosa, numa ideologia política, num paradigma científico, etc..

No caso dos dogmas de fé da Igreja Católica, não surgiram por acaso nem por alta recriação de um qualquer Concílio ou sínodo. Foram precisos quase 400 anos para que esses dogmas de fé fossem sendo sancionados até ao Concílio de Niceia. E mesmo depois do Concílio de Niceia, ainda decorreram mais 200 ou 300 anos até que esses dogmas de fé fossem assimilados em todo o território católico (naquele tempo não havia email nem telefones).

Por exemplo, o dogma da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo, ou então Deus, Verbo e Alma do Mundo) tem origem neoplatónica — a teoria da emanação, que é tão antiga quanto a História. Portanto, este dogma (como outros dogmas de fé) não surgiu por acaso nem por alta recriação do clero. Há sempre uma origem para o dogma, sendo que o conteúdo do dogma expressa-se em símbolos porque é impossível ao ser humano exprimi-lo de outra forma.

Fazendo um paralelismo: a física quântica expressa-se em símbolos (o formalismo matemático), sem os quais não seria possível exprimir a realidade quântica. No dogma de fé, acontece uma coisa parecida: precisamos de símbolos para os traduzir na linguagem. Por exemplo, em Orígenes, quando ele dizia simbolicamente que “o Verbo olha constantemente para o Pai para que o mundo não desapareça no olvido”; trata-se de um símbolo.

2/

A utilização da “falácia genética” em uma discussão pode ser falaciosa, quando recusa a análise de um problema. Por exemplo, quando eu quero saber em que contexto ideológico, social e político  surgiu o dogma da infalibilidade do papa, essa análise pode ser recusada ou refutada simplesmente invocando a falácia genética, incorrendo-se assim na falácia da generalização segundo a qual  “todos os dogmas da Igreja Católica têm o mesmo valor”. Mas se todos os dogmas da Igreja Católica são iguais no sentido do seu valor, então tornam-se indistintos e até indiscerníveis: se o dogma da Trindade tem o mesmo valor do da infalibilidade do papa, fica então justificado o argumento da “falácia genética”.

3/

Jesus Cristo nunca disse: “Eu sou infalível!”. Procurem nos Evangelhos se alguma vez ele disse isso. E o apóstolo Pedro, o primeiro Papa, nunca disse que era infalível. Nem na Idade Média os defensores do poder (político) absoluto do papa defenderam que ele era infalível. Chegados aqui, e sendo que isto que afirmei é verdade (quem tiver meios, que conteste!) temos que colocar a seguinte questão:

A verdade de uma crença, neste caso um credo religioso, ¿deve ser ajuizada pelos seus efeitos ou pelas suas causas?

Neste momento temos uma forte corrente ideológica dentro da Igreja Católica — representada pelo “papa Francisco” e pelos seus acólitos —  segundo a qual a doutrina deve ser ajuizada pelos seus (putativos) efeitos futuros, e não pelas suas causas (a troca dos efeitos pelas causas na validação da doutrina).

Do ponto de vista lógico, isto é um absurdo, porque uma crença é verdadeira se tem uma determinada relação com as suas causas. Ou seja, segundo os modernistas católicos, um dogma é bom se tiver aceitação no futuro, e é mau se não tiver essa aceitação. E se nenhum dogma tiver aceitação no futuro, então convém eliminar todos os dogmas, tratando-os a todos de forma igual — este espírito esteve presente na Nova Teologia e até no Concílio do Vaticano II.

O passado não depende do que fazemos agora; por isso, se a verdade é determinada pelo que sucedeu no passado, então segue-se que a verdade é independente das vontades actuais do “papa Francisco” ou vontades futuras de um qualquer papa ou clero. Essa verdade assim entendida, representa, em forma lógica, as limitações do ser humano.

Mas se a verdade — como defende o “papa Francisco” e os seus apaniguados — depende do presente e do futuro, então cabe-nos a cada momento redefinir não só a verdade como até a História. Podemos dizer, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral não chegou ao Brasil em 1500, mas antes em 1385. Isto alarga o poder e a liberdade do ser humano. Se  Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500 ou em 1385, “isso depende dos efeitos futuros”. Se me desagrada que  Pedro Álvares Cabral tivesse chegado ao Brasil em 1500, não há problema nenhum: com bastante Poder, perícia e ambiguidade (típica do “papa Francisco”), pode-se criar uma ordem social em que a data de 1385 terá uma aceitação pública garantida.

Em resumo: quando analisamos a verdade de um facto ou de uma crença, temos que considerar as causas e não os putativos efeitos. E analisar as causas de uma crença ou de um facto não é “falácia genética”: em vez disso, é a procura da verdade.

4/

Agora, uma pergunta: ¿quais são as causas do dogma da infalibilidade papal?

A resposta pode ser encontrada no século XIX, e não na Antiguidade Tardia quando o Cristianismo foi fundado e estruturado, e nem sequer na Idade Média do poder absoluto do Papa. E mesmo que o papa tivesse sido sempre considerado infalível — o que não é verdade! — ¿para que foi necessário um dogma estabelecido no século XIX para assinalar simbolicamente essa infalibilidade?

O dogma da infalibilidade papal assenta em uma reacção negativa da Igreja Católica ao modernismo, e essa reacção acaba por ser, ela própria, modernista, na medida em que substitui literalmente a autoridade de facto do Papa (que prevaleceu até ao século XIX) por uma autoridade de direito. Já não conta se o Papa é boa pessoa ou não: pode ser até o anticristo que não perde a sua autoridade de direito à luz do dogma da infalibilidade papal.

5/

Os “católicos fervorosos” e os ditos tradicionalistas recuam 150 anos na história da Igreja Católica. Mas para se ser verdadeiramente tradicionalista temos que recuar até meados do século XVII.

6/

A posição do “papa Francisco” em relação ao dogma da infalibilidade papal é ambígua: por um lado, ele diz (mais ou menos) que não concorda com o dogma; mas, por outro  lado, utiliza o estatuto de autoridade de direito que o dogma lhe confere para transferir a verdade da doutrina para os efeitos futuros, e em detrimento das causas da verdade.

7/

A ideia segundo a qual o Espírito Santo encarrega-se de todos os problemas e aos “católicos fervorosos” só lhes basta ficar quietos e rezar, é tão absurda que nem merece discussão. Nem Jesus Cristo defendeu essa ideia.

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