A crença de que há crenças científicas verdadeiras desligadas da metafísica

 

O Aires de Almeida cita aqui um texto sobre as “crenças”, texto esse que se auto-refuta — desde logo porque a Terra não é completamente redonda mas é achatada nos pólos, e depois, mesmo que não fosse achatada nos pólos, a Terra nunca seria idealmente redonda.

O conceito de “redondo” não é totalmente materializável senão eventualmente (“eventualmente” porque não está empiricamente verificado senão por inferência que pode ser falsa) a nível microscópico, e tudo o que é “redondo” no nosso mundo é uma aproximação a uma forma ideal de “redondo” (David Hume, por exemplo, ou Platão). O conceito de л (PI) é “irracional” (no sentido da razão humana), e por isso pertence à metafísica.

Quando dizemos que “a Terra é redonda”, laboramos em uma representação metafísica. Trata-se de uma razão epistémica que se fundamenta na metafísica. Portanto, a afirmação de que “a Terra é redonda” é uma crença verdadeira se, e só se, tiver como modelo ideal e representativo a “redondez” ideal e formal que não existe realmente no mundo macroscópico em que vivemos.

A proposição “a Terra é redonda” é uma proposição metafísica — porque, de contrário, não seria uma proposição verdadeira.

Podemos considerar uma crença como sendo falsa, mas sendo ela verdadeira; e podemos considerar outra crença verdadeira, mas sendo ela falsa. Não há nada que nos garanta que todas as crenças científicas actuais sejam verdadeiras. Portanto, não podemos afirmar que “ciência” é sinónimo de “verdade”: o que podemos dizer, com algum optimismo, é que “a ciência procura a verdade”.

O argumento de Pascal sobre a crença em Deus é lamentável — como quase todos os argumentos da escola de Port-Royal e dos Jansenistas são lamentáveis — porque é um argumento utilitarista no sentido moderno do termo: considera-se a “realidade de Deus” (e não a “existência de Deus”, porque Deus não existe no espaço-tempo da mesma forma que o personagem Aires de Almeida existe) em função de uma qualquer utilidade prática julgada conveniente. Portanto, não se trata de uma razão pragmática, mas antes de uma razão absurda.

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