Com esta “direita”, vamos andar tortos

 

Alguém colocou o seguinte comentário neste verbete em que me referi a um artigo do José Pacheco Pereira:

“A Europa está a ser justa ao apertar com o Sul do eterno presente onde nada muda; pagar 500 € à juventude com IVA a 23% é matar o país… entretanto pensões de 1000 e 1500 € é ao pontapé por aqui… uma vergonha.”

Esta forma de pensar caracteriza a chamada “direita” em Portugal, que de direita tem quase nada — mas também de um certo Partido Socialista. ¿Onde é que este raciocínio está errado?

1/ Parte do princípio de que a estada de Portugal no Euro só tem vantagens; daí a ideia de que “a Europa está a ser justa”, como se o Euro fosse uma dádiva de uma entidade abstracta chamada Europa — uma dádiva dos deuses.

2/ Os dez primeiros anos de permanência de Portugal no Euro são escamoteados, como se um passado muito recente não existisse. A situação de bancarrota a que Portugal chegou em 2011 era inevitável — poderia ser mais tarde, mas era inevitável — à luz da política monetária então vigente que serviu, entre outras coisas, para salvar a economia alemã da crise da Bolsa de 1999.

3/ Em consequência da política monetária do Euro da primeira década de vigência da moeda, surgiu a bancarrota de 2011 catalisada pela crise americana de 2008. A própria lógica do Euro impunha uma bancarrota de Portugal a prazo: era uma questão de tempo. Neste contexto, o actual dirigente do BCE [Banco Central Europeu], o português Vítor Constâncio, dizia em 2005 que o endividamento da economia portuguesa seria compensado pela federalização da União Europeia. Até hoje não vimos qualquer federalização, nem veremos.

4/ Se a permanência de Portugal no Euro começa a trazer mais desvantagens do que vantagens, ¿qual o interesse dos portugueses permanecerem no Euro? A resposta da “direita” é a seguinte: “A Europa está a ser justa ao apertar com o Sul do eterno presente onde nada muda; pagar 500 € à juventude com IVA a 23% é matar o país”.

E ¿qual a razão por que os salários médios baixaram em Portugal? E por que razão o PIB per capita grego, apesar da dita “crise que castiga o sul da Europa”, se mantém equiparado ao PIB per capita da região de Madrid? Por que é que Portugal, com a dita crise, passou a ser o país da zona Euro com mais baixos salários?

O problema daquele raciocínio é que é desprovido de quaisquer princípios; é uma opinião sem qualquer atenção a qualquer nexo causal, opinião essa divulgada pela “direita” e que serve para enganar os tolos.

Que seu saiba, a Direita — desde o tempo de Salazar — sempre serviu o país em primeiro lugar. A “direita” que temos hoje serve outros interesses que não o país.

5/ O corolário daquele raciocínio é o seguinte:

“A Europa está a ser justa ao apertar com o Sul do eterno presente onde nada muda; pagar 100 € à juventude com IVA a 23% é matar o país… entretanto pensões de 300 e 500 € é ao pontapé por aqui… uma vergonha.”

Por isso é que “a Europa tem razão” e Portugal deve continuar a aceitar passivamente as regras do Euro impostas pela Alemanha.

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