Ainda sobre a “discriminação científica” do Instituto Português de Sangue e Transplantação

 

“Pergunta o autor se “há razões médicas legítimas para considerar os homossexuais masculinos um grupo de risco”. A resposta é clara: não há. Mas João Miguel Tavares tenta demonstrar que sim e, para isso, confunde repetidamente orientação sexual com comportamento sexual, generaliza sobre os comportamentos sexuais, selecciona dados acerca dos casos de novas infecções para favorecer a sua hipótese e, com tudo isso, contribui para a discriminação de um grupo já severamente discriminado e para a difusão de ideias erradas acerca das vias de transmissão do HIV.

A noção de “grupos de risco” há muito foi abandonada e substituída pelo conceito de comportamentos de risco. Em primeiro, ser homossexual é uma coisa bem distinta de ser “homem que tem sexo com homens”. Em segundo, ser homossexual não constituiu risco absolutamente nenhum de contrair HIV porque o risco advém de determinados comportamentos e não da orientação sexual. Em terceiro, a prática de sexo anal passivo desprotegido (que é um comportamento de risco para contrair a infecção) não é exclusiva dos homossexuais.”

Devemos proibir os lisboetas de doar sangue? pelo Pedro Morgado

Como a ciência não pode verificar se uma percentagem quantificável de homossexuais toma no cu sem preservativo ou se se rompe o preservativo durante a penetração anal — porque se trata de uma situação do foro privado dos homossexuais —, então conclui-se ali em cima que a ciência incorre na falácia da generalização ao considerar que os homossexuais são um “grupo de risco” em relação à SIDA.

A ciência é assim acusada de falácia da generalização; mas a verdade é que quem defende esta posição incorre na falácia de acidente, que consiste em negar que uma regra geral não é aplicável, por uma questão de princípio, a uma situação particular.

Por exemplo, a ciência não pode provar que o seu eventual herpes labial, caro leitor, se deve ao facto de você praticar regularmente a posição sessenta e nove — a não ser que o leitor se confesse ao médico, o que não é obrigatório fazer. O que a ciência pode dizer é que a posição sessenta e nove (entre outros comportamentos possíveis) também pode ser causa do herpes labial, para além de poder ser causa de cancro na traqueia.

Se os alegados e confessos praticantes do 69 se juntam em uma associação política, então a ciência pode (e deve) alertar essa associação para o perigo do herpes labial (e do cancro na traqueia) considerando-o como “grupo de risco do herpes labial” — mesmo que haja, possível- ou provavelmente, um ou outro membro da associação, ou uma quantidade objectivamente indefinível dos seus membros,  que, por razões subjectivas e conjunturais, tivessem deixado de praticar o acto.

Portanto, a  ciência não pode saber objectivamente se todos os homossexuais praticam sexo anal.

Daí, conclui o politicamente correcto que, em função desse desconhecimento objectivo, a ciência deve abster-se de considerar os homossexuais como “grupo de risco da SIDA”. Estamos aqui no domínio da falácia ad Ignorantiam, e assim o ónus da prova  de que os homossexuais tomam no cu sem preservativo ou com preservativo roto, é transferido para a ciência. E como a ciência não o pode provar, conclui-se que não existe qualquer grupo de risco da SIDA.

Dizem então que o conceito de “grupo de risco” se tornou obsoleto e que foi substituído pelo conceito de “comportamento de risco”.

Ou seja, é considerado que dentro de um determinado grupo que se considera a si mesmo como tal, não há quaisquer regras ou normas objectivas que permitam classificar esse grupo — e por isso ficamos sem saber quais os critérios possíveis existentes que permitam classificar esse grupo enquanto tal. O grupo resume-se totalmente à sua subjectividade individual.

É verdade que afirmações verdadeiras, em termos colectivos, podem ser falsas em termos individuais.

Por isso pode ser falso afirmar que “todos os homossexuais tomam no cu sem preservativo ou com preservativo roto”; mas isto não significa necessariamente que “nenhum homossexual toma no cu sem preservativo ou com preservativo roto” — não é por que a primeira asserção é falsa que a segunda deve ser falsa também. Simplesmente não é possível aferir objectivamente o comportamento privado dos homossexuais, exactamente porque é privado.

A coberto da privacidade do comportamento sexual, que não é objectivamente verificável, o conceito de “grupo de risco” é rejeitado. É assim que funciona o politicamente correcto.

Como os comportamentos de risco não são exclusivo dos homossexuais, conclui-se ali em cima que “não existem quaisquer grupos de risco”. O tarado sexual está a salvo. Estamos aqui perante a falácia da mediocridade, que consiste em nivelar por baixo as características de todos os elementos da sociedade. É assim que funciona o politicamente correcto.

Depois vêm com o exemplo de Lisboa:

“Acho muito curioso que João Miguel Tavares, não tenha descoberto nas suas pesquisas uma estatística muito relevante: em 2013, a taxa de novas infecções em Lisboa era de 52,6%/100.000 hab contra uma média nacional de 13,6%/100.000 hab. Se levarmos à risca a ultrapassada teoria dos “grupos de risco” de João Miguel Tavares, então o grupo dos lisboetas também devia ser proibido de dar sangue dado que apresenta um risco de contrair HIV muito superior (quase 5 vezes superior) à média nacional.”

Se eu como um frango inteiro e tu não comes nenhum, a estatística diz-nos que ambos comemos meio frango. A não ser que saibamos objectivamente o que cada um come, a estatística funciona sempre assim.

Se considerarmos que a zona da grande Lisboa tem cerca de 30% do total da população do país, não podemos considerar Lisboa como uma amostra fiável do que se passa no país inteiro. Teríamos saber, por exemplo, qual é a percentagem de homossexuais em Lisboa em relação à população total, em comparação, por exemplo, com Bragança ou Aveiro. Se, dos 3 milhões de habitantes da grande Lisboa, a percentagem de homossexuais e bissexuais for de 7% a 10% do total da população total da zona, e se em Bragança essa percentagem for (por hipótese) de 0,01%, podemos então explicar (pelo menos parcialmente) a diferença da percentagem da incidência da SIDA. 

É certo que há heterossexuais com SIDA. Mas se considerarmos que os homossexuais são 2 a 3% da população total nacional, e que este relativamente pequeno grupo de pessoas é responsável por cerca de 30% das infecções de SIDA, não é objectivamente aceitável que se rejeite o conceito de “grupo de risco”.

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