O medo da rebelião

 

A tendência natural de um qualquer governo para a tirania só se pode combater com o medo da rebelião.

Os governos são piores se os cidadãos adoptam a espécie de submissão defendida por Hobbes no “Leviatão”. Vemos como, no Brasil, a classe política subverteu e prostituiu os mecanismos democráticos de “check & balance”, o que significa que o regime democrático, por si só, não garante a tendência natural dos governos — controlados pelas elites — para a tirania. É preciso que as elites tenham medo da rebelião.

Tea_PartyA rebelião não é necessariamente de esquerda: temos como exemplo o Tea Party nos Estados Unidos. Em muitos casos, a rebelião é uma amálgama de gente de quase todas as tendências políticas, como aconteceu na rebelião de 2012 contra a reforma da TSU (Taxa Social Única) que juntou mais de 1 milhão de pessoas nas ruas. Uma rebelião é mais frutífera se for transversal a toda a sociedade, e por isso os governos têm a tendência natural para dividir a sociedade, criando por exemplo fossos entre gerações ou entre classes sociais.

Na esfera política, os governos tentarão sempre — se puderem — tornar-se pessoalmente irremovíveis; e na esfera económica, tentarão sempre enriquecer-se, e aos seus amigos, à custa do erário público. Os governos de Cavaco Silva, António Guterres até José Sócrates são o exemplo provado disto. Este facto não tem nada a ver com ideologias políticas — à esquerda ou à direita — que apenas são uma forma de tomar o Poder e com isso obter benefícios materiais. E, na esfera intelectual, os governos têm a tendência natural para suprimir qualquer nova descoberta ou doutrina que lhes ameace o Poder.

A União Europeia tira partido destas tendências naturais dos governos nacionais, principalmente dos países do sul da Europa onde a tradição democrática é mais recente — Grécia, Espanha, Portugal e até Itália. É neste sentido que podemos dizer que a União Europeia pretende construir um leviatão, em que o perigo da anarquia política é combatido através da injustiça e da ossificação política que tende à omnipotência não só dos governos nacionais, mas sobretudo à ossificação da omnipotência do Poder da União Europeia.

Eu não concordo com a ideologia política do Syriza, mas se for verdade que a Alemanha defende já a saída da Grécia do Euro, isso é bom sinal porque reflecte a frustração do leviatão da União Europeia face ao medo da rebelião. À primeira vista parece que a Grécia vai sair prejudicada com a sua saída do Euro: em parte é verdade, porque no primeiro ano sem Euro, a Grécia vai viver uma anarquia política e económica. Mas, como em um jogo de cartas, a saída do Euro pode ser uma oportunidade de “baralhar e tornar a dar”, uma lufada de ar fresco na política grega, um relançar das posições políticas europeias. E depois de algum tempo de anarquia, a economia grega vai começar a crescer como nunca cresceu em 15 anos de Euro. O Euro não é inevitável!

A saída do Euro da Grécia será o princípio do fim da hegemonia alemã na Europa, e será uma machadada violenta na política oficial dos Estados Unidos para a Europa. Será a vitória do medo da rebelião sobre a construção do leviatão. Será um exemplo a seguir pelos povos que prezam a sua liberdade, contra os que utilizam o conceito de liberdade para defender a submissão dos povos.

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