A Teoria Crítica do Frei Bento Domingues

 

1/ Aqui, Frei Bento Domingues comete o mesmo erro que critica nos outros (indefinidos), porque reduz a acção de Jesus Cristo ao seu contexto histórico. Jesus Cristo nunca disse que “todos têm acesso a Deus”; o Frei Bento Domingues faz lembrar Orígenes — com todo o respeito por este último, e só por ele, com o qual concordo em algumas teses — que dizia que “até os demónios serão salvos”.

“A vontade de fixar certas interpretações, declarações, doutrinas e instituições religiosas como sendo absolutas, irreformáveis e definitivas — marcadas por tradições, contextos históricos e culturais muito circunscritos — roça a idolatria. Substitui o Absoluto transcendente pelo que há de mais relativo e banal, numa linguagem inacessível. Os textos do Novo Testamento (NT) mostram um constante empenhamento de Jesus em dessacralizar tempos, lugares e instituições divinizadas, pois tornavam o acesso a Deus privilégio de alguns e a condenação de quase todos.”

Por outro lado, Frei Bento Domingues relativiza valores (indefinidos) e acusa os outros (indefinidos) de “relativistas”. Para que possamos revogar “certas interpretações, declarações, doutrinas e instituições religiosas”, terão que existir razões suficientes 1  — e não porque o Frei Bento Domingues (e outros que tal) achem subjectivamente que devam ser revogados.

“Jesus não era da tribo sacerdotal, não andou em nenhuma escola rabínica, não era um teólogo profissional e, no entanto, pôs tudo em causa”.

2/ Este conceito de “pôr tudo em causa” não existe (ao contrário do que diz o frade) em S. Marcos 6, 1-5.

Dizer que “Jesus Cristo pôs tudo em causa” só pode vir de uma mente de certas seitas gnóstica da Antiguidade Tardia. O Frei Bento Domingues não lê os mesmos Evangelhos que o comum dos mortais.

3/ Pelo contrário, Jesus Cristo disse (S. Mateus 5, 17-18): Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição”.

“Pôr tudo em causa” não é a mesma coisa que “levar à perfeição”; “levar à perfeição” é “não deitar o bebé fora com a água do banho”; e o que o Frei Bento Domingues pretende é deitar tudo fora e construir o “Homem Novo” e um “Mundo Melhor”.

“Como não deixou nada escrito, e muito menos um catecismo bem arrumado, surgiram várias teologias cristãs. Os escritos do NT são irredutíveis a uma só teologia ou a uma só cristologia. Ler esses textos de estilos, épocas, lugares e propósitos tão diferentes, pelo olhar formatado de um Catecismo, é uma cegueira provocada pelo instinto de segurança e necessidade de controlar. São textos simbólicos, alusivos ao mistério inabarcável de Deus, que só com recurso à teologia negativa, apofática, é possível não cair na idolatria teológica. ”

4/ Aqui, Frei Bento Domingues faz de conta que é burro (não acreditem nele!: quem se faz de burro normalmente é asno).

É claro que qualquer escrito é susceptível de muitas interpretações (incluídas as interpretações abstrusas de Frei Bento Domingues). Se não fosse escolhida, ao longo de três séculos, uma determinada interpretação do Novo Testamento, o Frei Bento Domingues não estaria provavelmente hoje aqui falar de Jesus Cristo. O que parece é que o que o Frei Bento Domingues coloca em causa é a interpretação da Bíblia (não só do Novo Testamento, mas também o Antigo Testamento dos “Setenta”) feita por muita gente incluindo S. Jerónimo e Santo Agostinho. Naturalmente que podemos colocar em causa uma ou outra tese ou aspecto da doutrina; nada é indiscutível. Mas o que um católico não pode fazer é rejeitar liminarmente a interpretação do Novo Testamento a que se chegou depois de três séculos de discussão.

“De Deus, tanto mais sabemos quanto mais nos dermos conta de que ele excede todo o conhecimento. Nunca será prisioneiro dos nossos conceitos.”

fbd-2-web5/ é certo que nunca poderemos conhecer o conteúdo de Deus; mas (ao contrário do que pensa o Frei Bento Domingues) podemos conhecer a sua forma.

Quando o Frei Bento Domingues diz que “Deus excede todo o conhecimento”, quer dizer que “Deus é incognoscível” o que é, em si mesmo, uma afirmação de um conhecimento acerca de Deus, ou um conhecimento de um atributo positivo acerca de Deus.

Se eu digo, por exemplo, que “é impossível conhecer o planeta Plutão” é porque já o conheço pelo menos na sua forma. A asserção do Frei Bento Domingues refuta-se a si mesma.

6/ por um lado, Frei Bento Domingues diz que “ler esses textos de estilos, épocas, lugares e propósitos tão diferentes, pelo olhar formatado de um Catecismo, é uma cegueira provocada pelo instinto de segurança e necessidade de controlar”; mas, por outro lado, acusa os teólogos do Vaticano de “falta de profissionalismo”; ou seja, um catecismo ou uma doutrina oficial construídos através de um profissionalismo teológico é mau se, e apenas se, for contra o conceito de “profissionalismo teológico” do Frei Bento Domingues. Se tivéssemos um catecismo à moda do Frei Bento Domingues já passaria a ser bom.

7/ diz o Frei Bento Domingues que “Jesus Cristo nada tinha de teólogo profissional”, o que implicitamente significa que Jesus Cristo poderia, eventualmente, ter algo de “teólogo profissional”.

Ora, a verdade é que Jesus Cristo, pela sua própria natureza, nunca poderia ter nada de teólogo profissional — desde logo porque Jesus Cristo não era da mesma laia do Frei Bento Domingues, e depois porque Jesus Cristo não era cristão do mesmo modo que o Frei Bento Domingues alegadamente é. Aliás, os primeiros judeus cristãos não tinham a consciência de que estavam a seguir uma nova religião; pensavam que iriam reformar o Judaísmo; foi só com a acção de S. Paulo que o Cristianismo de autonomizou do Judaísmo. Jesus Cristo nunca poderia ser teólogo profissional porque Ele próprio encarnava os fundamentos da teologia, era a causa da teologia e não um efeito como é um “teólogo profissional” ou um frade qualquer.  

8/ chegados aqui, perguntamos: ¿o que é que o Frei Bento Domingues quer?

O Frei Bento Domingues faz lembrar a Teoria Crítica do marxismo cultural da Escola de Frankfurt: critica, critica, critica… mas nunca diz o que pretende; quando lemos a Teoria Crítica só ficamos a saber o que não se quer; mas ficamos sem resposta quanto ao que se pretende.

¿O que é que o Frei Bento Domingues quer? Quer o “casamento” gay na Igreja Católica? Quer que os “recasados recasados recasados” (recasados elevados ao cubo ou mesmo à quarta potência) comunguem na missa? Quer que os recasados se recasem e se voltem a recasar pela Igreja Católica? O que é que ele quer? E por que não o diz explicitamente? Por que se esconde cobardemente por detrás de uma Teoria Crítica da Igreja Católica?


Nota
1. “Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.” — Leibniz

Ficheiro PDF do texto do FBD.

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