O problema da indução e da dedução da ministra Maria Luís Albuquerque

 

A economia não é uma ciência exacta, por mais que hoje esteja na moda dizer que todas as ciências são exactas. Desde David Hume que sabemos que o empirismo puro não é base suficiente de ciência; e sendo as estatísticas baseadas no passado, não podemos ter a certeza da validade científica desses dados estatísticos no futuro.

Hume defendeu a ideia de que, para se estabelecer um conhecimento necessário de uma sequência de eventos, deveria ter que se provar que a sequência não podia ser de outro modo; e que não é uma auto-contradição afirmar que “embora todo o A tenha sido seguido de B, o próximo A não será seguido de B”. O único conhecimento causal que podíamos esperar atingir é o conhecimento de associações de facto de duas classes de acontecimentos. Até hoje, ninguém conseguiu refutar esta ideia de Hume.

Portanto, não podemos ter a certeza, como a ministra Maria Luís Albuquerque diz que tem, que os futuros pensionistas serão prejudicados por causa dos actuais pensionistas (via) — mesmo que haja uma possibilidade indiciada por indução por enumeração simples (inferência não demonstrativa). A indução é um princípio lógico, embora independente, que é impossível de inferir da experiência.

Mas vamos partir do princípio de que a posição da ministra Maria Luís Albuquerque se baseia na prudência: existe uma possibilidade — ou mesmo probabilidade — de que as coisas se passem como ela pensa que se vão passar e, por isso, por uma questão de prudência, resolve cortar 600 milhões de Euros por ano nas pensões dos reformados actuais.

Se pensarmos que as PPP (Parceria Público-privada) custaram ao erário público desde 2009 cerca de 8 mil milhões de Euros (equivalente à despesa do ministério da saúde em um ano), e sabendo que a corrupção (incluindo sobretudo a corrupção no Estado) custa ao país cerca de 20 mil milhões de Euros por ano — a posição “prudente” da ministra é difícil de sustentar porque a prudência dela aplica-se apenas a uma dimensão específica da economia, e por isso tem um carácter puramente ideológico.

Não trata apenas de um problema de indução: é sobretudo um problema de dedução errada e enviesada.

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